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POLÊMICA EM TORNO DAS IRMÃS CEGAS

Fundador e sócio da TV Zero, Roberto berliner, que também é diretor do longa metragem “A pessoa é para o que nasce”, conversa sobre o processo de criação da emissora na década de 1990, de como a publicidade está presente em suas produções e de como as ceguinhas de Campina Grande entraram em sua vida. Carioca, Berliner tem uma experiência conquistada através de diversos trabalhos midiáticos. Também dirigiu filmes publicitários e documentários, tendo trabalhado ainda na Rede Globo e na extinta Manchete. Foi um dos fundadores do Circo Voador, onde fez uma série de filmes sobre o movimento de artistas envolvidos com os projetos de música, dança, teatro, circo, além de iniciativas em comunidades carentes. Seus documentários também foram premiados no Brasil e no exterior, entre eles: “Angola” (1988), “God for all” (1993), “Som da rua” (1997), “A pessoa é para o que nasce” – o curta (1999) e “A afinação da interioridade” (2002). “A pessoa é para o que nasce” é o seu primeiro documentário de longa-metragem.

ROBERTO BERLINER FALA SOBRE PUBLICIDADE E DO FILME “A PESSOA É PARA O QUE NASCE”, COM AS CEGUINHAS DE CAMPINA GRANDE

Vocês fundaram a TV Zero numa década em que o cinema brasileiro sofreu um grande golpe com a extinção da Embrafilme e da Fundação do Cinema Brasileiro. Como Foi o surgimento da TV Zero nesse cenário?

Eu comecei com o Super 8 e fui direto para o vídeo. Ficava impressionado de ver tanta gente boa sem filmar e nunca entendi a aversão que esses cineastas tinham com o vídeo. Éramos categorias diferentes, tinha o pessoal do cinema e o pessoal do vídeo. Os festivais eram separados... Para mim sempre foi a mesma coisa. E Nessa época em que o cinema ruiu, fazer vídeo era a solução, foi o que fiz. Nós somos de classe média, a nossa idéia sempre foi viver do que gostamos de fazer. Misturar aventura, divertimento, com profissionalismo, estudo, experiência... O coletivo é muito importante para o desenvolvimento do que a gente faz. Esse filme (A pessoa é para o que nasce) é um filme da TV Zero porque ela sustentou o filme e porque todos de lá colaboraram de alguma forma. A TV Zero é a nossa utopia no dia-a-dia.

Um filme como “A pessoa é para o que nasce” está atraindo para si e para as irmãs bastante publicidade. Será que não é publicitário demais e social de menos?

Não entendi o seu ponto de vista. Hoje me dedico mais ao cinema que a publicidade, foi uma decisão que aconteceu durante o filme. Mas certamente trago dentro de mim o publicitário e me utilizo de tudo que aprendi para ajudar a divulgar o filme. E tem também o diretor de videoclipes que se mistura com isso tudo.

Como é fazer cinema para agradar o público?

Eu faço cinema para o público, quero me relacionar com o público, quero que ele vá ao cinema e saia de lá pensando sobre o que viu, quero criar uma parceria com o espectador, quero que ele veja nos filmes da TV Zero algo co emoção, sensibilidade, um filme que instigue a pensar, quero agradar ao espectador porque é a ele que quero atingir, assim como o jornal e os livros querem atingir os seus leitores.

Por que Paraíba, Pernambuco e ceará foram escolhidas como os primeiros estados a serem documentadas pelo projeto “Som da rua”?

Pela força musical dessa região. Tinha pouco dinheiro e pouco tempo. Essa região tem uma quantidade enorme de talentos musicais, sabia disso. E sou um grande admirador do Nordeste e tenho grandes amigos aí que me ajudaram muito em todo o projeto, gente como o Lula Queiroga, a Daniele Hoover, o Bráulio Tavares, o Lenine, o Noaldo Neri, o Silvério Pessoa, o Otto e um monte de gente mais.

Como foi a experiência de fazer seu primeiro longa-metragem?

Ele foi surgindo. As conheci filmando o Som da rua, uma série de mini-documentários sobre músicos de rua. Fiz um programa com elas, me encantei de imediato e comecei a pensar no curta logo que me despedi delas. O mesmo aconteceu com o longa. Antes do curta estar pronto, já sabia que faria o longa. Mas o projeto demorou muito mais que o previsto. Não fiquei satisfeito com o primeiro corte, aquilo que eu imaginava que seria o filme. No meio dessa crise, o curta sobre elas, com o mesmo título, fazia muito sucesso e recebia prêmios em festivais no Brasil e no exterior. O Gil e o Naná viram o curta e as convidaram para se apresentarem no PercPan. Ia ser a primeira vez que elas tocariam num palco. Resolvemos interromper a edição e ir filmar esse novo momento na vida delas. Durante esse período, eu fazia vários outros trabalhos (comerciais, clipes, documentários) pela TV Zero, produtora da qual sou sócio e que foi fundamental na realização do filme. Saía e voltava para o filme. Essas idas e vindas não eram muito fáceis porque eu entrava num universo completamente diferente, onde não faltava nada, nem equipamento, nem dinheiro, é um universo de luxo. Quando voltava para a dura realidade de montagem e as próprias filmagens, era complicado, eu já não era mais o mesmo. Como sabia que estava diante de um material poderoso, resolvemos que iríamos usar a única coisa que tínhamos, tempo. O Léo Domingues (montador e co-diretor do filme) e eu resolvemos só acabar o filme quando estivéssemos totalmente satisfeitos. Não queríamos fazer apenas um filme. O tempo foi fundamental para a gente pela dimensão que a vida delas ganhou.

Como você vê essa polêmica criada no Cine Ceará a respeito da nudez das irmãs?

Eu acho excelente a polêmica, gosto quando as opiniões são divergentes, mas lá a polêmica não foi muito interessante. Acho que tem muita gente que se incomoda de ver três mendigas no papel de estrelas de cinema. Isso choca mais a essas pessoas que a própria miséria delas.

Como você está trabalhando esse efeito celebridade junto a elas e até que ponto o filme irá proporcionar uma mudança social concreta para as três irmãs?

Conversamos muito sobre tudo isso que está acontecendo. Tenho a impressão de que elas estão se divertindo muito com isso tudo e entendo a importância da mídia na vida delas. Elas estão encarando como trabalho. Percebem que podem sobreviver disso e de que precisam dessa badalação. Tenho conversado muito sobre o que vai acontecer depois disso tudo, mas é difícil prever. De qualquer maneira tenho muita confiança na capacidade delas em se adaptar a realidades diferentes. Com relação às mudanças sociais concretas, espero que sim, elas são sócias do filme. Se o filme for bem, elas vão ganhar dinheiro, se não for, vão depender de seus rendimentos enquanto cantoras. Vamos ver. Somos amigos e a gente tem participado co uma ajuda de custo desde o início do filme.

O que mais te marcou, nesses sete anos em que você acompanha o dia a dia dessas mulheres?

A forma simples de viver e a sinceridade que elas têm. O filme trata exatamente de toda esta íntima relação que se estabeleceu entre nós. A amizade e confiança vão ficar pra sempre.

Você se sente responsável por elas?

Não. Somos muito amigos e eu vou ajudá-las sempre que puder, mas não posso me responsabilizar por tudo que acontecer a elas. Somos amigos e parceiros nesse filme.

E você, o que olha ao se “ver” na grande tela branca?

Vejo todos os meus defeitos. Não gosto de aparecer, nem de ouvir minha voz. Isso aconteceu por influência da equipe, eles me convenceram da importância de virar personagem. Foi a primeira vez que apareci e foi muito difícil no início, mas agora já em acostumei.

Por Calina Bispo , 10 de Julho de 2005