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YES, NÓS TEMOS HISTÓRIAS

Cláudio Lucena: Cláudio de Lucena é formado em Ciência da Computação, pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Consultor empresarial em Tecnologia da Informação. É Advogado e Professor Titular do Departamento de Direito Privado da Faculdade de Direito da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), do CESED-FACISA, da Escola Superior de Advocacia (ESA), e Assessor Jurídico da Procuradoria da Secretaria de Administração do Estado da Paraíba. É trezeano de morrer.

A sorte é que eu estava em Campina Grande. Porque se alguém de lá assistir A pessoa é para o que nasce (Born to be blind) em qualquer outro lugar do mundo, dificilmente vai conseguir segurar a emoção, a nostalgia e a saudade daquele fantástico cantinho desse mundão de meu Deus. E não vai ser aquela emoção do Delúbio, do Genoíno, do Lula, do Dirceu ou do Valério não. Tô falando de emoção sincera, honesta.

Maroca, Poroca e Indaiá são cegas de nascença, mas isso, no filme, é apenas um detalhe. São porta-vozes e expoentes de uma arte única, primitiva, inimitável, inspiradora e de uma riqueza fascinante, mas essa arte genial também não é o foco do trabalho, não é o que torna o filme uma jóia cinematográfica, uma obra-de-arte.

O segredinho parece ter sido farejar uma história deslumbrante em vidas aparentemente sem brilho, em pessoas comuns e sem erudição que não aquela crua e áspera da própria vida que vivem e transitam por lugares triviais, sem charme ou glamour de qualquer natureza.

Lá está retratado com fidelidade o cotidiano de três mulheres pobres e comuns do interior do nordeste, mas a história, nem por isso, fica previsível ou deixa de ser interessante. Lá estão praticamente todas as tragédias da vida humana, mas a história, apesar de tudo, não é triste. Porque é, no fundo, uma bela história sobre dignidade.

Sobre a dignidade que não ser perde no mau fado e no obstáculo físico imposto pela própria vida, que não desvanece na lembrança do abuso do padrasto, que não sucumbe à falta do que vestir, do que comer, do que sonhar, que resiste às mágoas silenciosas e inconfessáveis da infidelidade entre irmãs, que sobrevive no desejo de ser gente, de ser mulher, de se sentir amada, desejada, de criar filhos e de sair de cena deixando uma marquinha de nossa passagem por aqui.

Essa esperança de dignidade é o que acaba mantendo a vida e, particularmente no nordestino, um senso de humor indestrutível que, na falta de ter do que rir, manga, debocha e zomba até de sua própria desgraça. E, no final das contas, Roberto Berliner jamais saberá ao certo quantas histórias contou, porque contou muitas outras, além daquela pela qual se encantou. E eu sei de pelo menos uma dessas.

Lá está o cenário da minha infância, as estampas, o tecido e os modelos dos vestidos da minha avó, as vizinhanças de parede-meia, sempre muito mais próximas e bem-informadas da vida alheia do que o que seria confortável, casas como aquela onde eu me criei, de vãos sem porta – quando muito, uma cortina – separando os cômodos e as vidas simples que despertam sem vaidades excessivas, ao som do Grande Matutino Borborema.

Lá está o céu, na entrada para Serra Branca, à altura da Praça do Meio do Mundo, mais azul, vivo e lindo do que nunca, a Livraria Pedrosa e o Beco do 31, o interminável movimento nas ruas do Zepa, que poderia ser a Liberdade, o Médici, o São José ou a Palmeira ou outros tantos e tantos recantos da minha Campina Grande, da nossa Paraíba e desse apaixonante Nordeste.

Lá estão, enfim, outras tantas histórias ocultas, um pouquinho da história de um monte de gente que, como eu, carrega agora como que um certo desgosto por ter crescido ali do lado, sempre por perto, ouvindo, passando, mas sem nunca ter reparado na aura mágica daquelas mulheres, sem nunca ter reconhecido na humildade daquela manifestação simplória uma fonte preciosa e abundante de arte popular.

Um desgosto que não pode ficar só por nossa conta, na Campina Grande das ceguinhas, mas que deve ser sentido por todos aqueles, em todas as partes, que cresceram perto das milhares de ceguinhas, de mudinhas, de aleijadinhas e de pobrezinhas por este Brasil afora, sem jamais enxergar para além daquela pobreza inquietante e perturbadora, que é o que primeiro salta aos nossos olhos, e que ofusca o brilho e o valor das vidas simples.

Paga-se um preço por decidir ver além do que os outros resistem em ver, por encarar o desafio de criar uma obra dessa profundidade. Não se embarca na aventura de contar uma história como essa, da forma que foi contada, completamente por dentro, sem arriscar a própria pele, os próprios sentimentos, a forma cômoda e confortável de se levar e de se tocar a vida.

Felizmente, Berliner estava disposto a pagar esse preço. As vidas da história não são mais as mesmas. Nenhuma delas. A troca de idéias, de experiências, de impressões, de sentimentos, tudo contribuiu para tirá-las definitivamente do curso e da velocidade em que vinham.

Além disso, sucesso, popularidade, fama e um pouquinho de grana – tudo isso, claro, passageiro – trouxeram um alívio material efêmero, mas bastante significativo e claramente perceptível para as três irmãs.

Pena que a grana que tá na jogada não é suficiente pra mudar definitivamente a história de Maroca, de Poroca e de Indaiá tão profundamente quanto as experiências emocionais do filme as mudaram. Mas no destino delas, certamente há história suficiente pra dar uma balançada na vida de todos nós. , 25 de Julho de 2005