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ILUMINADAS DE NASCENÇA

Documentário sobre três irmãs ceguinhas estréia amanhã, na Sala de arte – Bahiano

Para Maria, Regina e Conceição, as Ceguinhas de Campina Grande – protagonistas do longa A pessoa é para o que nasce, vencedor no 15º Festival de Cinema do Ceará, que estréia amanhã, na sala de arte – Bahiano - , o cinema foi a oportunidade de inveerter a rota do destino. Não fosse o encontro, há oito anos, com o diretor carioca, Roberto Berliner, as três provavelmente estariam condenadas à rotina de pedintes nas ruas e feiras livres daquela cidade paraibana.

Agora, depois de amargar 30 longos anos cantando, tocando ganzá e esmolando para sustentar uma família de 14 pessoas, todas videntes, Maroca, Poroca e Indaiá (apelidos de infância) são tratadas como artistas e recebem o carinho do público por onde passam. “A gente era muito humilhada nas ruas, às vezes passava um gaiato que dava tapa na cabeça da gente, puxava o cabelo, fazia maldade e, quando a gente reclamava, saía mangando. Hoje, não precisamos mais pedir”, conta Indaiá, ou Conceição, mais nova das irmãs,com 54 anos.

A mudança que o cinema trouxe se refletiu em melhores condições de vida, alimentação, saúde e habilitação – com o dinheiro dos shows, conseguiram comprar uma casa melhor em Campina Grande. Juntamente com a divulgação do filme, estão cumprindo uma turnê que já passou por Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza. Depois de Salvador voltam para casa para descansar um pouco. “A nossa vida está melhorando muito. Através dos shows, conhecemos muitas cidades diferentes e pessoas muito boas, que nos tratam com amor e carinho,” confirma Poroca, a primogênita, 62.

Além da visão – Apesar de cegas de nascença, as irmãs tiveram participação importante no resultado final do documentário. “Elas foram as primeiras a ‘assistir’ ao filme e o ‘vêem’ em todas as cidades em que vamos. Quando fui mostrar o filme para elas pela primeira vez, descrevia as cenas e elas entendiam. Queria que elas aprovassem o filme. Hoje elas adoram ‘assistir’ e ‘comentar’, conta Berliner, acrescentando que houve um momento em que perdeu, por assim dizer, o controle do filme.

Isso porque, quando as cantoras começaram a ganhar maior visibilidade (o que ocorreu após o lançamento, em 1998, do premiado curta homônimo ao filme, resultado do primeiro encontro entre diretor e irmãs, um ano antes), diretor e equipe passaram a correr atrá delas nos shows para os quais eram convidadas, como aconteceu com o PercPan de 2000. Recebidas por Gilberto Gil (que compôs uma bela canção para as três, incluída na trilha do filme) e Naná Vasconcelos, foram muito aplaudidas, no TCA e na Concha Acústica. “O filme também conta com a interferência delas. Houve um momento em que elas mesmas pegaram na câmera”, diz Berliner.

Um momento que ilustra bem a chamada perda de controle é quando Maria, ou Maroca, 60 se apaixona pelo diretor. A cena em que o diretor reúne as três para esclarecer que é casado e reafirmar a sua amizade poderia ser constrangedora, mas acaba rendendo um dos momento mais singelos da película. “A paixão que ela teve era um símbolo. Para mim, tem a ver com todo o amor que tive com elas, por tê-las tratado de uma maneira que ninguém tratou, dava atenção, ouvia o que elas tinham a dizer. Acho que qualquer um se apaixonaria por uma pessoa que muda sua vida dessa maneira”, conjetura o cineasta, que nunca havia aparecido em seus filmes e foi convencido pelo co-diretor Leonardo Domingues a inserir a seqüência. “A inclusão dessa cena muda a perspectiva do filme e mostra que o diretor sofreu a interferência delas”, justifica Domingues.

“Outra seqüência marcante, que foi alvo de algumas críticas, foi a do banho de mar. Nuas, as irmãs entram no mar pela primeira vez na vida em Tambaba, que, por acaso, é uma praia de nudismo, em João Pessoa. “Essa cena têm vários significados. Primeiro, é um pouco o símbolo de todo o filme: chegamos nelas de uma maneira tão profunda que as desnudamos. Segundo, elas queriam conhecer o mar e eu tinha três opções: ou elas entravam de roupas, ou comprava uns maiôs, ou elas entravam nuas, que eu achei a melhor maneira de elas terem contato com o mar. As pessoas da equipe ficaram mais chocadas do que elas, e eu acho a nudez delas linda”, considera. , 14 de Julho de 2005