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O CANTO NÃO ENXERGA BARREIRAS

As irmãs cegas de Campina Grande, que cantavam em troca de esmolas, viram celebridade nacional com documentário e cd lançado

Durante quatro décadas e meia cantando por esmolas na feira, as irmãs ceguinhas de Campina Grande tornaram-se parte do cotidiano da cidade. A partir do ano 2000, ganharam notoriedade nacional. Primeiro por uma participação em um Globo Repórter dedicado a artistas de rua. Em seguida, quando Regina, Maria e Francisca Barbosa tornaram-se personagens de um documentário de Roberto Berliner. Gilberto tomou conhecimento delas por intermédio de Berliner e as convidou para o PercPan (festival de percussão que acontece em Salvador). Por último, as três acabaram na vitrine mais badalada do país, a novela das oito da Globo.

Gil, aliás, foi quem melhor as definiu: São borboletas. Frágeis, graciosas e que parecem viver para espalhar alegria por onde passam. Entrevistei-as em Salvador antes da badalação atual. Quando as vi no saguão do velho Hotel da Bahia, eram como se uma parte da minha infância estivesse ali. Lembro-me das três, no centro da Campina Grande, cantando com seus ganzás, uma metade da lata de queijo do reino para as esmolas. Bráulio Tavares diz mais ou menos isso no texto que escreveu para o encarte do disco A pessoa é para o que nasce, que está sendo lançado este mês: “Nasci e fui criado em campina Grande, e as três ceguinhas que cantavam coco fizeram parte da minha paisagem durante a vida inteira...”

A mais velha, Regina tem 62 anos, a mais nova Francisca, 55. Maria tem 61. Viraram artistas por necessidade: “Ninguém tinha a visão, e não tinha ninguém que desse nada pra nós sobreviver. Então começamos a cantar e pedir esmolas na rua”, explica Regina, espécie de porta voz do trio.

Impressiona a qualidade do repertório das irmãs, formado por canções simples e pungentes. Regina apressa-se em dizer que elas não compõem. O que cantam é uma colcha de retalho de coisas que aprenderam durantes suas muitas andanças pelo interior do Nordeste (começaram em 1955): “Quando a gente andava pelo meio do mundo ficava na casa das pessoas que tinham o mesmo ramo. Eles ensinavam e a gente aprendia. Não vou dizer que tem música que nós fizemos, porque não tem. Tem uma canção aí que é se Eliseu Ventania, lá de Mossoró. Se chama “A noite está enluarada enquanto é bela”.

São conhecidas como ceguinhas de Campina Grande, mas não nasceram lá. Duas são de cidades menores do sertão paraibano, e uma é potiguar: “Foi por causa do pai da gente. Ele vivia andando pelo meio do mundo. Era agricultor, mas bebia. Plantava um roçado, tomava uma cana, vendia e ia para outro canto. Aí cada um de nós nasceu num lugar diferente. Temos uma irmã e um irmão . Mas deficientes, só nós três”, continua Regina.

Como elas mesmas dizem: “A gente gosta de olhar as coisas. Olhara não, que a gente não vê, mas presta atenção”. Elas prestavam tanta atenção no burburinho resultante da movimentação de músicos, de vários países, no saguão do hotel, que preferiu concluir o papo. Fiz uma derradeira pergunta, meio óbvia, que recebeu mais uma resposta inusitada. Quis saber o que estavam achando daquele início da fama, a primeira viagem de avião: “É muito bom demais”, disse Francisca e o que esperavam de futuras apresentações em cidades onde nunca imaginaram ir: “Ôxe, isso é nada! Se eu for contra os lugares onde a gente já cantou...!” , 03 de Julho de 2005