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TvZero
UM DOCUMENTÁRIO PECULIAR

Documentário nacional que teve longa gestação (A Pessoa É Para o Que Nasce)

A PESSOA É PARA O QUE NASCE Brasil, 2005 –89 minutos – Europa Filmes Direção: Roberto Berliner Co-direção e montagem: Leonardo Domingues Produção executiva: Rodrigo Letier, Paola Vieira, Renato Pereira Roteiro: Mauríco Livossky Por João Marcelo F. de Mattos

“A Pessoa É Para o Que Nasce” foi um assunto em voga dentro do pequeno grande universo do documentário no cinema brasileiro (uma das partes mais vitais da nossa cinematografia e cultura no momento), por algum tempo. A pesquisa e documentação da rotina de vida de Maria, Regina e Francisca da Conceição Barbosa, três irmãs cegas de nascença que ganham a vida tocando ganzá e pedindo esmolas em Campina Grande(PB), que realizou o cineasta Roberto Berliner, se deu ao longo de alguns anos e originou material diverso (como um curta que serviu de ensaio preliminar). Este ponto culminante que é o longa (já conhecido de festivais, antes de chegar ao circuito comercial no ano passado), representa a depuração no tratamento e análise do fenômeno escolhido, o que talvez explique sua maturidade (é melhor que o curta, e não apenas pela óbvia possibilidade de poder “falar mais” sobre o assunto).

Essa permanência longeva do projeto no círculo daqueles que prestigiam o documentário nacional, também explica como o longa “A Pessoa É Para o Que Nasce”, teve menos repercussão (de público e crítica) dentro deste círculo já de claros limites de alcance, do que merecia. Berliner e seu time na produtora TV Zero tangenciam com muita propriedade algumas das questões mais caras ao cine-documentário em toda a sua história, e em especial neste momento no panorama mundial. No documentário atual, a ética que se promove e advém da escolha do “objeto” a ser documentado, e como se filma e se relaciona com este “cine-fato”, procuram fugir, neste momento no planeta, do didatismo a qual o documentário sempre se vinculou e do dispositivo narrativo clássico, absoluto em sua maneira de articulação, mas paradoxo, quase envergonhado de sua presença.

O documentário moderno preconiza um enfrentamento entre o fato e o documento, muito mais claro e óbvio (câmera quase “grita” a presença, narração também deixa isso claro). Está tudo aqui em “A Pessoa É Para o Que Nasce”, até por ter gerado esta duração extensa do projeto, uma interação entre diretor e equipe, cujo ponto alto é o tema mais polêmico do filme: a paixão de uma das mulheres por Berliner, que numa cena muito forte, “confronta” este sentimento num quarto de hotel, falando para as três, em especial para aquela que ele detectou (Maria), desenvolveu este sentimento por ele, dizendo que gosta de todas, mas não tem amor no sentido passional, que é bem casado, etc. Neste sentido, o do clareza da exposição dos mecanismos, o documentário se filia à tantos outros dos últimos anos planeta Terra afora. Mas na cena que mencionei e em vários outros instantes (como o fato de mostrar na conclusão, as irmãs tomando um banho nuas num rio, o que revoltou, tolamente, algumas pessoas*), este despudor e negação do bom-tom das classes bem-pensantes cheias de consciência culpada e/ou deslumbramento-chique paternal (a aparição de nosso simpático Ministro da Cultura paparicando as irmãs no palco de um show traz bem isso), são alguns dos motivos pelo qual “Pessoa” se destaca.

Ao lado deste enfrentamento peculiar, que usa o novo-banal estético, aliado ao não-politicamente correto, o filme se sustenta num pólo de progresso narrativo muito interessante, pois tem uma certa urgência de registro, algo jornalístico (o sucesso que as mulheres fazem, shows, etcs), ágil; porém também tem uma maneira, felizmente, discreta, e não forçosa de introduzir no corpo da imagem e do som, uma representação que “brinque”, mexa um pouco com esse dado de ser cinema, sobre pessoas incapazes de ver, que enfim, tente traduzir o universo delas para a representação fílmica. O desenvolvimento da obra permite (como em outro bom documentário brasileiro recente, o simples mas subestimado “Fala Tu”), que os objetos do documentário aos poucos se apropriem um pouco também do filme, tornando-se agentes muito mais presentes no desenrolar de tudo, saindo com leveza do papel de conduzidas. Se em “Fala Tu”, eram as pessoas mandando seus recados sociais e particulares, aqui são as irmãs encantadas com a possibilidade de virarem “estrelas” e usando o filme para expiar assuntos pessoais e rancores umas das outras (uma delas se destaca e fala muito mais que as outras), o que também chocou algumas pessoas.

Vale dizer que essa interação/confrontamento no filme é substancialmente diferente, por exemplo, do que seria e é proposto na obra do mestre atual do documentário no Brasil, Eduardo Coutinho. O método de Coutinho é ao mesmo tempo, muito mais fluido e formulaico, criado ao longo do tempo e de carreira já muito estabelecida, e que tem limites mais claros. Estreando, Berliner toma decisões ousadas, como a de manter a conversa no quarto de hotel, que Coutinho com certeza não tomaria, e mesmo outros documentaristas veteranos ou iniciantes. O todo em “Pessoa”, ainda nos permite, notar o quanto diretor e equipe se deixam levar pelo interesse no tema escolhido, e abrem interpretações sobre os meandros do assunto (se existe ou não boa vontade das pessoas com a música da irmãs por causa da deficiência delas, etc). Perto do fim (antes do banho), quando Berliner e a mulher, visitam as irmãs depois de algum tempo, o filme há muito já arrebatou o espectador atento para a riqueza de detalhes e significados que mostra e sugere.

No meu cânone particular, o melhor filme brasileiro de 2005 (ficção incluso), e única obra nacional na lista dos dez mais.

* na verdade, a cena é muito terna pela naturalidade e beleza da paisagem e da luz captada.

Extras dos extras:

Muito cuidada e cheia de extras interessantes. Parte da série de TV “Som da Rua” (que dedicou programa às irmãs), especial “As Três Irmãs”, Curta Metragem que deu origem ao filme, especial “Sobre o filme”, Making-Of, Gravação do CD “A Pessoa é para o que Nasce”, Clipe "Atirei no Mar", com o Paralamas do Sucesso, Clipe "Noite Enluarada" com o Pato Fu. , 15 de Fevereiro de 2006