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TvZero
POESIA NA VIDA REAL, RISO ‘POP’ NA FICÇÃO
O público recebeu muito bem os dois últimos concorrentes da Première Brasil na noite de segunda-feira. O documentário “A pessoa é para o que nasce”, de Roberto Berliner, e a ficção “O diabo a quatro”, de Alice de Andrade, filmes de dois diretores estreantes em longas-metragens, arrancaram lágrimas (o primeiro), muitos aplausos e boas risadas (ambos) da platéia, que lotou o Odeon. Originado de uma curta-metragem homônimo, de 1998, “A pessoa é para o que nasce” demorou sete anos para ficar pronto. Valeu a pena esperar. O filme registra o cotidiano das irmãs Maria (apelidada de Maroca), Regina (Poroca) e Conceição (Indaiá) Barbosa, cegas de nascença, que passaram sua vida cantando coco e tocando ganzá, em troca de esmolas em diferentes cidades nordestinas como Juazeiro do Norte e Campina Grande. Na tela, estão também as reviravoltas que o próprio filme e a relação com seu autor renderam ao trio. No filme, boa parte da trajetória das irmãs é contada por elas mesmas. Há desde conjecturas sobre a razão pela qual elas são cegas, até suas desventuras amorosas (Maria foi casada duas vezes e perdeu o segundo marido de modo trágico), e as formas que acharam para sobreviver. Berliner registrou pérolas de humor e ingenuidade Criativa, a câmara por vezes está parada, captando ações e reações das irmãs, em outras está nas mãos delas. Num belo exercício de humildade, o documentarista pouco aparece à frente delas. Berliner costura com sensibilidade artesanal os retalhos das vidas das três irmãs, de quem o diretor apresenta registros feitos de 1970 até 2003. São pérolas de humor ingênuo, de quem tira leite das pedras. É um filme sobre o amor, cantado pelas três irmãs, segredado por uma delas à câmara, coagulado em imagens e sons lindos, doces e frágeis, os adjetivos usados por Gilberto Gil para descrevê-las em um de suas apresentações no Panorama Percussivo Mundial (Percpan). O desfecho é poético. E, ao fim da projeção, rostos sorridentes, com olhos lacrimejantes, agradeciam a Berliner pelo seu trabalho. “A pessoa é para o que nasce” é forte concorrente em sua categoria. Exibido na última sessão do Odeon, “O diabo a quatro” encontrou forte eco na platéia. Com humor de acesso fácil, o filme de Alice de Andrade agradou ao público com a história de Rita de Cássia (Maria Flor), Tim Mais (Márcio Libar), Paulo (Marcelo Farias) e o menino Waldick (Netinho Alves), quatro personagens da babel Copacabana, cujas vidas se entrelaçam, no que a diretora chama de comédia social. Babá de uma dondoca separada, Rita flerta com o surfista Paulo Roberto, amigo circunstancial do traficante China (Jonathan Haagensen), cuja mãe trabalha como empregada em sua casa. Para chamar a atenção de Paulo, Rita se junta ao grupo de prostitutas “freqüentado” pelo rapaz. Aos poucos, as relações degringolam, e um crescendo de violência afeta a vida de todos. Sempre com um viés cômico, popular, como na passagem em que Alice se utiliza do histórico e engraçado aparecimento de latas de maconha nas praias da cidade. Há oscilações no ritmo e irregularidade nas atuações. Usados de forma esparsa, alguns maneirismos com a câmera não constituem uma experiência formal consistente. Ainda assim, Alice parece ter encontrado seu público na segunda-feira. Curiosamente, de forma mais eficiente com os tipos na órbita da trama central, como a empregada Odisséia (Maria Sílvia) e a drag queen Monique (Sérgio Machado). Eduardo Simões , 06 de Outubro de 2004