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TvZero
NO FIO DE UMA LÂMINA
Roberto Berliner tinha dois caminhos à sua frente quando se dispôs a fazer um trabalho mais completo sobre as três ceguinhas de Campina Grande, com quem já tinha realizado um antigo microprograma de TV e um curta-metragem. Ou optava pela correção política, fingindo documentar pessoas comuns e cercando-se de precauções éticas, ou partia para um envolvimento afetivo com as personagens e suas características "especiais". Felizmente, ele fez a segunda opção, fonte de todo o encantamento e também de algumas restrições puristas que vêm sendo feitas a seu belo filme. Esse envolvimento transparece em todos os níveis. Na linguagem despudorada, capaz, por exemplo, de arrastar o romantismo épico de uma conhecida melodia de Ennio Morricone para o cenário da caatinga. Ou na convivência do diretor com "as meninas" em quatro períodos desde os anos 1980, a ponto de Maria desenvolver um sentimento mais profundo em relação a ele. A inserção desse tema espinhoso na edição do filme não só dá mostras do tipo de relação estabelecida durante o trabalho, como informa sobre a disponibilidade afetiva dessas mulheres afastadas das imagens do mundo, mas não da experiência dele. A Pessoa É para o que Nasce é um exercício no fio de uma lâmina. Nada mais arriscado do que filmar quem não vê e portanto não controla a forma como se dá a ver. Apesar da consciência de estarem sendo "estrelas de cinema", que Berliner trabalha habilmente numa seqüência inesquecível, o fato é que as três irmãs não estão habilitadas a se "construírem" diante das câmeras, como fazem todos os que enxergam. Documentá-las, portanto, é viver o difícil dilema de penetrar na sua intimidade sem no entanto explorá-las além do que elas estariam dispostas a aceitar. Nesse aspecto, o filme é quase irretocável. Pode-se fazer alguma restrição à seqüência em que uma delas é insitada a usar um telefone, provocando risadas constrangidas na platéia. Pode-se reprovar o uso metafórico de um passarinho na seqüência final. Ou perceber uma perda de densidade no bloco da Bahia, quando elas se apresentam no Percpan coadjuvadas por um Gilberto Gil paternalizante. Mas tudo isso fica insignificante diante de uma jóia cinematográfica que encanta a cada minuto. A cena final com o banho ao ar livre, uma das mais polêmicas do documentário, é de uma coragem notável. Berliner confronta os preconceitos estéticos do espectador e impõe uma poética bruta que paira acima e além da beleza. Estamos no terreno da mais plena fantasia cinematográfica, algo que as três irmãs têm evidente prazer em intuir. O desnudamento físico de Maria, Conceição e Regina é apenas uma parcela irrisória do quanto elas se dão a ver num projeto que ajudou a transformar suas vidas. Carlos Alberto Mattos , 27 de Setembro de 2004