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PERFORMANCE CANADENSE
Performance canadense Público do Festival de Montreal recebe com aplausos estréia mundial de filmes de Torero e Berliner Cena de 'A pessoa é para o que nasce', de Roberto Berliner MONTREAL, Canadá - Atrações da mostra paralela latino-americana no Festival Internacional de Montreal, que acontece na cidade canadense até segunda-feira, os filmes brasileiros estão tendo boa performance. A comédia Como fazer um filme de amor, de José Roberto Torero, e o documentário A pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner, ambos fazendo sua estréia internacional e ainda inéditos no circuito comercial brasileiro, foram muito aplaudidos em sessões concorridas. Boa parte dos espectadores dos filmes nacionais é formada por alguns dos 4 mil brasileiros que residem em Montreal, mas, pelo alto índice de gargalhadas com que o filme de Torero foi recebido, os canadenses captaram o espírito da produção, uma sátira aos clichês do cinema romântico bem ao estilo do diretor paulista, que faz sua estréia em longas depois de construir sólida e premiada carreira como curta-metragista. O humor sarcástico e a narração em off feita pelo ator Paulo José, duas das marcas registradas de Torero, ditam o tom do filme, que ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Recife e é estrelado por Cassio Gabus Mendes e Denise Fraga. Já o documentário A pessoa é para o que nasce, sobre três senhoras cegas que, apesar de terem alcançado a fama por um breve momento como cantoras, ainda pedem esmolas nas ruas de Campina Grande, na Paraíba, mostrou não apenas mais uma faceta da cruel realidade social brasileira. A forma como se revelam no filme de Berliner surpreendeu e emocionou a platéia. A convite do JB, a cineasta iraniana Maryam Keshavarz, que vem causando sensação em Montreal com seu filme de estréia, o documentário Rangeh eshgh (As cores do amor), foi assistir A pessoa é para o que nasce. Em seu filme, Maryam oferece um impressionante retrato de como as mulheres iranianas lidam com as questões do casamento e da sexualidade, num país em que 70% da população tem menos de 30 anos e vem experimentando mudanças radicais em seus costumes e tradições milenares nos últimos cinco anos. O que mais chamou a atenção de Maryam no filme de Berliner foi justamente a maneira como as irmãs cegas, na faixa dos 50-60 anos, lidam com a sexualidade. - Mesmo com toda adversidade e os revezes que sofreram na vida, elas parecem muito vivas e nunca conformadas com o pouco que têm, o que é surpreendente se pensarmos no estereótipo de mulheres cegas e idosas - analisa Maryam, 29 anos, única mulher numa família de oito irmãos, formada em cinema pela New York University e que experimentou uma educação mais liberal por ter sido criada nos Estados Unidos. Com exceção de seus pais e irmãos, todo o resto de sua grande família permanece no Irã, onde os casamentos ainda são arranjados e poucos têm a oportunidade de realizar um matrimônio por amor. Ela não consegue imaginar como as três irmãs cegas sobreviveriam se fossem iranianas. - Para mim é difícil entender como elas sobrevivem sozinhas, sem família. No Irã tudo gira em torno dos núcleos familiares. Além disso, elas não poderiam seguir carreira como cantoras, pois lá as mulheres não podem cantar em público. Além do filme de Maryam, causou frisson a visita da atriz francesa Isabelle Adjani, uma das homenageadas do festival. Aos 49 anos, mas aparentando 30, Isabelle concedeu rápida mas disputada entrevista coletiva, durante a qual ouviu mais elogios que perguntas. Ela contou que aproveitou a visita ao Canadá para almoçar com o diretor de Invasões bárbaras, do canadense Denys Arcand, mas jurou que não falaram de filmes. Deu uma de Brigitte Bardot ao condenar a matança de focas no Canadá e se derramou em elogios ao cineasta francês François Truffaut, com quem trabalhou em A história de Adelle H. - Eu tinha apenas 19 anos na época, ainda não tinha consciência da importância de Truffaut, do filme e da personagem, mas ele foi muito atencioso comigo e marcou muito a minha carreira - contou. Com simpatia, Isabelle Adjani desmentiu a fama de Truffaut de ter dormido com todas as protagonistas de seus filmes. - Eu ainda era virgem naquela época - explicou. Marcelo Janot, 31 de Agosto de 2004