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A VIDA COMO ELA É
A Vida como ela é O documentário A Pessoa é para o que Nasce mostra como um filme pode mudar a vida não apenas de seus personagens, mas também de quem está por trás das câmeras. Sinopse Foi amor à primeira vista. Era 1997 e o documentarista carioca Roberto Berliner estava trabalhando no projeto Som da Rua, cujo objetivo era fazer minidocumentários sobre músicos de rua anônimos pelo Brasil. E foi em Campina Grande, cidade de 355 mil habitantes no agreste da Paraíba, que o diretor se apaixonou por três mulheres que se tornariam parte de sua vida pelos sete anos subseqüentes. Maria, Regina e Conceição Barbosa são três irmãs deficientes visuais que tocavam ganzá nas ruas da cidade em troca de esmolas. Sua trajetória, do anonimato ao status de “estrelas de cinema”, foi registrada pela câmera atenta e curiosa de Berliner. O resultado é o documentário A Pessoa é para o que Nasce, que estréia nacionalmente em março de 2005. Seleção de cenas O filme teve origem a partir de um curta-metragem homônimo, dirigido por Berliner em 1998. O curta de seis minutos foi premiado no Brasil e no exterior por trazer, num tom leve e divertido, a história das deficientes visuais que tocavam ganzá para se sustentar em Campina Grande. O longa, por sua vez, tem trama de fazer inveja a Nelson Rodrigues. Berliner e o co-diretor Leonardo Domingues fizeram um trabalho primoroso ao costurar, numa única narrativa, as histórias de Maroca, Regina e Conceição, nascidas quase cegas “porque Deus quis”, usando as palavras das próprias protagonistas. A deficiência visual é um fator que as une, para o bem ou para o mal. “O filme é sobre o tempo e personagens sensacionais”, explica Berliner. “É muito difícil encontrar pessoas interessantes que tenham tanto a dizer.” E é no melhor estilo rodriguiano que se desenrola a primeira parte do documentário. Os amores frustrados, as tragédias e a vida nas ruas são entremeados por depoimentos de vizinhos, irmãos e filhos, que revelam relacionamentos nem sempre fáceis. Desconfianças e traições também vêm à tona à medida que se cria intimidade com a câmera. A segunda metade do filme, por sua vez, representa uma quebra completa na narrativa da história, segundo Berliner. Familiarizado com as personagens, o espectador acompanha então a trajetória das “três ceguinhas de Campina Grande”, como ficaram conhecidas, ao status de “estrelas de cinema”, dando entrevistas a jornalistas do mundo inteiro e se apresentando com artistas como Gilberto Gil. A reviravolta foi resultado do curta rodado por Berliner, que gerou o convite para que elas tocassem com músicos profissionais num festival em Salvador. Essa é uma das grandes inovações do filme: registrar o impacto do filme na vida das protagonistas. São várias as cenas memoráveis nos 85 minutos de longa. Berliner e Domingues fogem da narrativa tradicional para aproximar o espectador do universo de Maroca, Regina e Conceição, usando recursos pouco convencionais. A inclusão de cenas que teoricamente não entrariam no filme gerou imagens autênticas, situações engraçadas, revelações envergonhadas. Um dos momentos mais ternos acontece quando Maroca confessa um amor secreto – cena que fica ainda melhor quando, na seqüência, ouve-se o inconfundível Roberto Carlos no rádio. Entrevista com os diretores Roberto Berliner: Berliner se refere ao filme como o grande projeto de sua vida. Tudo começou com um curta-metragem, mas o cineasta sabia que seria um projeto provisório. “O curta é mais sobre sensações”, lembra. Mas ele queria fazer algo mais longo e profundo. A primeira conversa – “incrível”, como ele mesmo define – aconteceu enquanto ele esperava sua equipe voltar com ganzás para que elas pudessem tocar, já que naquela época elas haviam perdido os seus. Foi na conversa despretensiosa que Maroca batizou o projeto. O curta acabou emprestando seu nome ao longa. “Não consegui encontrar outro, acho que me apeguei a ele”, confessa. O diretor se recorda da crise em que se encontrava em 2000, quando estava acabando de editar o que seria apenas uma primeira versão do filme. A frustração vinha de um documentário que não havia saído como o previsto. Mas em quatro anos muita coisa pode acontecer, e aconteceu de Naná Vasconcelos ter visto seu curta. Acabou convidando as três irmãs para tocarem junto com artistas profissionais no PercPan, um festival de percussão na Bahia. A partir daí, “as coisas começaram a falar por si só”. “Foi quando elas venceram o roteiro e eu perdi o controle. Só me restou filmá-las”, diz Berliner. Era o empurrãozinho que faltava para que o longa tomasse fôlego e retratasse a segunda etapa da vida das irmãs: a trajetória rumo ao estrelato e o impacto disso em suas vidas. O diretor não ficou só atrás da câmeras. Ele desempenha um papel fundamental como personagem e ainda sente um certo desconforto ao se ver como parte da trama. “Mas a equipe achou que valia a pena incluir as cenas. E eu sou muito democrático”, brinca. Roberto Berliner, 47 anos, é casado com Ana Amélia e pai de Antônio, de 3 anos. Mora no Rio de Janeiro e seus principais trabalhos incluem Angola (1998), Som da Rua (1997) e Afinação da Interioridade (2002). Leonardo Domingues: o cineasta Leonardo Domingues passou a fazer parte da equipe de A Pessoa é para o que Nasce em 1998, como editor e depois como co-diretor. A primeira vez que encontrou as três irmãs foi em Salvador, para as filmagens do PercPan. “Mas naquela época já rolava uma admiração”, lembra. “O que mais chamou sua atenção no filme foi a interação entre elas e o fato de serem cegas. A relação entre elas é muito engraçada.” Segundo Domingues, mais que um obstáculo a deficiência visual foi um facilitador na relação das irmãs com o filme e a equipe. “Como elas não viam, não havia inibição. Elas falavam coisas sem saber que estavam sendo filmadas”, conta. “Elas não têm consciência de imagem, o universo delas é auditivo. O fato de não enxergarem fez com que elas se soltassem muito mais.” Uma das dificuldades para finalizar o documentário foi a ausência de um roteiro definido. O método de trabalho para determinar a direção do filme também era pouco tradicional e envolvia muito recorta-e-cola de entrevistas transcritas em folhas de papel. “Na tentativa de descobrir que filme queríamos fazer, chegamos a passar nove meses na serra carioca tentando nos concentrar e trabalhar,” lembra. “Ainda assim, não aconteceu.” Mesmo com 90 horas de imagem e 200 horas de som ao todo, houve momentos em que era difícil levar o projeto adiante. “Nunca pensamos em largar porque sabíamos que era material demais para ser arquivado”, conta. “No mínimo aquilo ia virar um média. Mas adiamos muitas vezes sua continuação.” Foi com o convite para o PercPan que o filme encontrou seu rumo e deslanchou. Domingues resume em uma frase a experiência de co-dirigir seu primeiro longa: “Foi muito intenso fazer esse filme.” Leonardo Domingues, 30 anos, é carioca e mora no Rio de Janeiro. Entre seus principais trabalhos incluem-se Pombagira (1998), Onde a Coruja Dorme (2001), Amyr Klink – Mar sem Fim (2002) e Bala Perdida (2003). Idiomas A Pessoa é para o que Nasce ainda não foi completamente finalizado mas já foi apresentado a audiências no exterior. O filme abriu o Festival de Amsterdã em novembro do ano passado, onde comoveu a platéia. “Eles não conseguiam conceber a idéia de que artistas como elas poderiam viver naquelas condições”, conta Domingues. “Por isso, arrecadaram dinheiro depois da sessão para que mandássemos a elas.” O documentário também abriu o festival “É tudo verdade”, no Rio de Janeiro, e foi mostrado em seu equivalente paulista no final de março. Em junho, foi apresentado no MoMA Premiere Brazil, uma mostra não competitiva de filmes brasileiros em Nova York. Juntamente com Filhos do Vento, foi o único filme apresentado em todos os dias da mostra. O lançamento do longa em rede nacional está previsto para março de 2005. “Acho que a partir daí é que a vida delas vai mudar”, diz Domingues. Lilian Liang , 01 de Julho de 2004