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TÃO PERTO, TÃO LONGE
Festival de documentários É Tudo Verdade reacende polêmica sobre distanciamento ideal entre diretor e seus personagens. No momento mais surpreendente do documentário A Pessoa á para o que nasce, Roberto Berliner, o diretor, pára para conversar com suas três personagens, as irmãs cegas paraibanas Regina, Francisca e Maria Barbosa. Ele tem que explicar a elas que, casado, não pode corresponder aos sentimentos de Maria, apaixonada por ele. O filme, que abre hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, às 19h, em sessão para convidados, o festival anual de documentários É tudo verdade, promete causar polêmica graças à maneira como invade (e muda) as vidas das personagens, irmãs que pedem esmola nas ruas de Campina Grande (PB) tocando ganzá e cantando. Pois parece que a verdade de É Tudo Verdade este ano é justamente a medida dessa distância imprecisa entre documentarista e objeto. No mesmo em que o também polêmico 33, de Kiko Goifman, está em cartaz em São Paulo e se prepara para chegar ao Rio, revelando a busca pelo diretor pela mãe biológica que ele nunca conheceu, vários filmes do festival parecem moldados para mostrar que quando esse objeto é uma pessoa, é difícil definir a distância segura entre aquele que filma e aquilo que é filmado. No caso de A pessoa é..., Berliner foi convencido pelo co-diretor e montador Leonardo Domingues e pelo roteirista Maurício Lissovsky a manter na versão final da cena, rodada sem pretensões cinematográficas pela câmera de Jacques Cheuique. - Foi o momento mais difícil de toda a produção e ainda é até hoje. Elas já insinuavam aquela paixão há algum tempo e não houve jeito de conversar com elas. Filmamos aquilo porque filmamos tudo. Mas a cena não ia entrar. Nunca apareci em nenhum dos meus documentários. Mas, aos poucos, fomos notando que o filme era, em parte, sobre como a sua realização havia influenciado a história delas – diz Berliner. O diretor reconhece que a sua entrada nas vidas das irmãs as transformou. Graças ao filme, as três participaram do festival Percpan, em Salvador e São Paulo, onde ganharam mais destaque que Gilberto Gil. O diretor paga uma pensão mensal às cantoras, que receberam ainda cachês pela participação no filme e terão um futuro percentual da bilheteria. Até agora, já conseguiram comprar uma nova casa. O papa do documentário brasileiro, Eduardo Coutinho, diretor de Cabra marcado para morrer e Edifício Máster, conhecido justamente por defender uma grande distância entre ele e seus personagens, a ponto de só aparecer nos filmes como entrevistador, diz que não vê necessariamente problema em o diretor se inserir pessoal e emocionalmente na obra: - Isso já acontece há muitos anos, o diretor filmar o próprio umbigo. Não tenho nada contra do cara ser ou não ser interessante para o público. Pois esse “cinema umbigo” tem pelo menos um exemplar ao pé da letra no festival: Mensageiras da luz,do niteroiense radicado em São Paulo Evaldo Mocarzel. O diretor, até pouco tempo em cartaz com À margem da imagem, em que já reduzia a distância entre eles e os personagens (moradores de rua da capital paulista), permitindo que elas falassem (mal) dele, agora coloca não só o seu umbigo, mas o próprio filho na tela. Em um trabalho sobre parteiras da Amazônia, não teve pudor de filmar o parto cesariano de Mateus, seu caçula, nascido em novembro de 2002, e usar as imagens no filme, em contraposição ao método natural utilizado por suas personagens. - Não tive como não me tornar parte integrante da história. Não podia me fechar a usar aquele nascimento, que aconteceu enquanto estava preparando o projeto - diz Mocarzel, que fez o filme quando descobriu que a participação social das parteiras no Norte é tão forte que elas chegaram a constituir uma associação no Amapá. Cabe a pergunta: se é mesmo “tudo verdade”, até que ponto um documentário não perde sua capacidade de descrição do “real” ao reduzir tanto a distância entre cineasta e personagem e chegar a fazer do próprio diretor objeto do filme? Não se corre o risco de ser tendencioso ou, no mínimo, pouco isento? Para pesquisadora Consuelo Lins, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, que acaba de lançar o livro O documentário de Eduardo Coutinho, a isenção não existe. A tendência está chegando tarde ao cinema brasileiro, diz ela, já que acontece na Europa e nos Estados unidos desde os anos 60. O Cinema Umbigo - A diferença é que agora isso é problematizado pelos filmes. Nos documentários clássicos, não se falava disso, mas não temos acesso às relações que os documentaristas mantinham com seus personagens, que também deviam ter seus problemas – diz Consuelo Lins, ela mesmo documentarista que teve que driblar o desejo de aproximação de um personagem sua, a travesti Índia, figura central de seu filme Juliu´s Bar exibido no É Tudo Verdade de 2001. Para Berliner, que assume ter estabelecido, a partir do documentário, uma relação com as irmãs Barbosa “pelo resto da vida”, o que conta é a maneira como este contato é estabelecido: - Procuro ser honesto. Não tento ser agradável, a priori, com nenhum entrevistado. No caso das irmãs cegas e o diretor, a explicação para tanta intimidade pode estar no tempo de convivência. O longa é a terceira obra da equipe da produtora TvZERO inspirada nelas, o que criou convivência. O longa é a terceira obra da equipe inspirada nelas, o que criou uma convivência de quase sete anos. Eles as conheceram em 1997, quando fizeram em Campina Grande um programa para a série Som da rua, da TVE. Em seguida, rodaram o curta que tem o mesmo título do longa , que , exibido no É Tudo Verdade de 1999, e que ganhou o prêmio da competição nacional do evento. Com o prêmio, financiaram o filme atual, que demorou quatro anos para ficar pronto e mudou muito ao longo do processo. -Inicialmente, havia uma pretensão de distância, de se fazer um filme na terceira pessoa, mas as coisas foram mudando. No começo, eu só montava e estava achando o envolvimento do Roberto com elas muito perigoso. Mas depois, também me envolvi diz Domingues. Em muitos casos o envolvimento pode ser prévio, não ser nascido do filme. No caso de Abry, por exemplo, da mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros, o documentarista Joel Pizzini teve como co-diretora a cineasta Paloma Rocha, nada menos que a neta de sua personagem Lúcia Rocha, mãe de Glauber Rocha e fundadora do espaço Tempo Glauber. O filme, que traz o histórico da famosa Dona Lúcia até sua internação em um hospital em São Paulo, aos 84 anos, não só expõe a fragilidade da personagem diante da possibilidade da morte, como acaba expondo a relação entre ela e os cineastas. -Um filme não pode ser neutro, tem que ser apaixonado. O diálogo entre o ético e o estético é sempre um problema, por isso fizemos um filme de ambigüidades -diz Pizzini, que foi convidado pela própria Lúcia Rocha para filma-la no hospital e que relutou muito em transformar o trabalho em filme, devendo a decisão à entrada de Paloma no projeto e à sua capacidade de traduzir o universo da família. Em Do outro lado do Rio, da mostra competitiva nacional o diretor Lucas Bambozzi, que acompanhou brasileiros que fazem o trânsito clandestino entre o Oiapoque e o território da Guiana Francesa, acaba por se tornar, ele também, um “criminoso”: vê-se obrigado a atravessar a fronteira clandestinamente. Já A alma do osso mostra um personagem que queria permanecer isento, um eremita mineiro, mas acaba a obrigação. Alexandre Werneck - Especial para o JB, 25 de Março de 2004