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TvZero
DIGNIDADE REVELADA

As Ceguinhas são o foco de A pessoa é para o que nasce

“A cegueira pode ser libertadora. A gente é que está preso ao olhar. A cegueira pode nos trazer outras belezas, com mais sensações na audição e no tato”, enfatiza Roberto Berliner, diretor do longa A pessoa é para o que nasce. Pode parecer discurso preparado e rconfortador, mas prima pela verdade quando se analisa o empenho dele (ao lado do co-diretor e montador Leonardo Domingues) e o resultado com o documentário gerido por quase oito anos.

“A riqueza maior a gente não tem (a visão, no caso)”, chega a observar uma das três personagens do filme, todas irmãs, cantoras e cegas, conhecidas carinhosamente como as Ceguinhas de Campina Grande. O sobrenome Barbosa é comum a Maria, Regina e Francisca, mas – pelo caráter de intimidade da produção – o que tem peso são os apelidos das três.

Em certo sentido, o filme até dialoga com a proposta de À Margem da Imagem, fita de Evaldo Mocarzel que debatia em torno do direito de exploração da imagem de marginalizados. A perspectiva, porém, é bem otimista: a experiência do filme resulta na saída das cantoras de um universo limitador. As novas estrelas de cinema – como anuncia uma rádio local nordestina – ficam prontas para os afagos de Gilberto Gil e Naná Vasconcelos (curadores do Percpan 2000) e para os aplausos de milhares de espectadores no Teatro Castro Alves, onde se projetaram.

Uma das grandes qualidades do filme é passar longe do paternalismo. A qualquer ameaça do diretor, são as próprias entrevistadas que se “defendem”. Numa das cenas mais engraçadas, Maria trata de retrucar atitude mais cautelosa de Berliner: “Ele (o diretor) tá pensando que tá conversando com criança..."

Elemento de grandiosidade para a trama é a reação das senhoras frente a barreiras – como mágoa, viuvez, traição e rudeza – que obstruem trajetos de felicidade. A própria maneira peculiar com a qual elas se expressam também é enriquecedora e faz frente ao astral levantado por ganzás, repentes e cocos que enterram de vez as dificuldades do período em que as ceguinhas se embolavam pelas calçadas a pedir esmolas. , 08 de Junho de 2005