link_home
TvZero
LONGA BUSCA ALTERNATIVAS FORMAS DO VER

Desde os primórdios, o cinema foi fascinado pelos cegos. Em 1921, pouco depois dos clássicos "O Nascimento de uma Nação" e "Intolerância", D.W. Griffith (1875-1948) filmava "Órfãs da Tempestade", sobre uma mulher que promete cuidar para sempre da irmã cega. Dez anos depois, em "Luzes da Cidade", Charles Chaplin (1889-1977) criaria a florista que se tornaria uma das personagens inesquecíveis de seus filmes. A fascinação dos diretores parece ser a de contrapor o espectador, desde sempre engolfado pelo encanto do cinema, com pessoas que sobrevivem sem usufruir desse mecanismo hipnótico.

Projeto de uma produtora carioca, "A Pessoa É para o que Nasce" perfila Maria, Regina e Conceição, três irmãs cegas de Campina Grande (PB), que há muito tocam ganzá em troca de esmola nas feiras.

Ignoremos a montagem problemática -originalmente um curta de seis minutos, sofre com alguns excessos, como as muitas cenas de repercussão da música das irmãs em TVs locais e apresentações pelo país.

O interesse das personagens, encantadoras incontestáveis, reside no fato de encontrarem formas alternativas do ver para compensar sua cegueira. "Vêem" o mundo por meio da música, do contato com os parentes e o público e até do desejo plenamente assumido -de uma delas pelo próprio diretor do documentário. Tanto que Maria emprega abertamente o verbo: "Ainda não estive em São Paulo, mas estou louca para ver os paulistas".

A energia vital, a inteligência e o senso de humor das três, que foram recebidas até por Lula, são suficientes para prender o interesse até o fim. Mas restam algumas questões éticas do documentário que o diretor parece ter abandonado lá atrás, nas mãos de mestres como Frederick Wiseman (1930) e Jean Rouch (1917-2004).

Um cineasta tem o direito de filmar (e tornar público) detalhes da vida íntima de três pessoas humildes e que parecem ter pouca consciência dos dispositivos de massa? Uma irmã fala da mágoa que sente das outras. A filha de uma delas é descrita como preguiçosa. É preciso ter mais cautela, uma vez que o "Big Brother" não existe só no horário nobre da TV. , 03 de Junho de 2005