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TvZero
SEM MEDO DO ESCURO

A PESSOA É PARA O QUE NASCE. A sentença que dá nome ao documentário de Roberto Berliner é apenas uma daquelas frases acachapantes disparadas, sem “arrodeios”, por Maroca, a mais velha das irmãs sertanejas (além dela há Poroca e Indaiá) para definir o seu papel no meio do mundo: a de cega que canta nas ruas das cidades e feiras do Nordeste em troca de esmolas.

Filho de imigrantes europeus, Berliner debruçou-se sobre a vida dessa tríade durante sete anos, seduzido, a princípio, pelo canto primitivo das irmãs — que, assim como ele, são migrantes, sempre em movimento, obrigados cada qual por ofício ou história. E, numa segunda etapa, pela tragédia grega de suas personagens: incestos, traições, assassinatos e trajetórias de submissão e redenção. Os vários prêmios do filme — que na versão original era um curta — provam a velha máxima: quanto mais regional, mais universal.

O que interessa à câmera de Berliner, que subverte ao dividir seu olho digital com suas Graias — as três anciãs que na mitologia enxergavam presente, passado e futuro e dividiam um único olho — é o papel da arte que forjou o espírito dessas mulheres míticas. Estão lá com toda a sua força e riqueza, condensados em versos e na vida de Maroca, Poroca e Indaiá, a herança de um saber que faz daquele pedaço de mundo um país que durante séculos quis ser moderno. Pode conferir, sem medo do escuro., 03 de Junho de 2005