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TvZero
VISÃO ACURADA

Uma mulher interrompe a caminhada e pergunta: — Não são as ceguinhas da novela?Um rapaz suspende o passeio de bicicleta, outros diminuem o passo, algumas crianças se aproximam e, em pouco tempo, Maroca, Poroca e Indaiá são o alvo da curiosidade geral. Naquela manhã de sol ameno e vento frio na Praia do Arpoador, em pleno feriado de Corpus Christi, as três mulheres de Campina Grande, na Paraíba, cumprem o desejo de Maroca que, no documentário “A pessoa é para o que nasce”, explica porque aceitou participar do filme dirigido por Roberto Berliner: “Fazendo isso eu vou ficar conhecida por todo canto.”

Pois antes mesmo da estréia do filme, na sexta-feira, as três já se tornaram celebridades. Fizeram uma participação na novela “América”, receberam do presidente Lula a medalha de Honra ao Mérito, conheceram Pelé, tiraram fotos ao lado de Deborah Secco — a pedido da atriz — foram aplaudidas por quatro mil pessoas no festival de percussão PercPan, colheram elogios de Fafá de Belém, Naná Vasconcelos e Otto e foram homenageadas em música por Gilberto Gil.

Nada mal para três irmãs analfabetas, cegas de nascença, que passaram a vida pedindo esmola nas ruas e experimentaram todo tipo de provação, do estupro sofrido por Poroca ao assassinato do marido de Maroca.

“A pessoa é para o que nasce” cobre sete anos da vida das três, de 1998 a 2005. Berliner, da produtora TV Zero, ouviu falar pela primeira vez das “ceguinhas cantadoras” em 1997, quando fazia o programa “Som da rua” para a TVE. Foi a Campina Grande e, do encontro, resultou ainda um premiado curta-metragem. Mas ele logo percebeu o potencial dramático da história e fez um longa-metragem que revela toda a grandeza das três pequenas mulheres.

As irmãs falam abertamente dos problemas, remexem as feridas, mas não se deixam abater e extraem humor até dos momentos de dor. Neste desnudamento total, o espectador oscila entre o riso e o nó na garganta. A certa altura, Maroca faz troça ao falar de seus dois casamentos, que terminaram com a morte dos maridos: “O primeiro marido eu passei 11 anos casada com ele. E agora esse outro passei só dois anos. Se eu arrumar outro de novo, vou passar só um mês.” Em outra passagem, ela ironiza o diretor: “Ele está pensando que está conversando com criança.”

— Meu tempo de neném já terminou — diz hoje Maroca, que se tornou avó há seis meses.

E, de fato, elas são bem mais perspicazes do que se pode supor.

— Elas tiveram uma percepção muito clara do que era o filme. Durante a filmagem, Maroca começou a entender o cinema como espetáculo. Ela percebia pelo barulho se a câmera era de vídeo, que ficava ligada todo o tempo, ou de cinema, que registrava só alguns momentos. Então guardava as coisas importantes para esta última: “Vou falar sobre isso? Então eu quero quando a câmera de cinema estiver ligada.”

Indaiá, apelido de Francisca da Conceição Barbosa, e Poroca, nascida Regina Barbosa, costumam usar roupas iguais, mas Maria das Neves Barbosa, mais conhecida como Maroca, faz questão de se vestir diferente das irmãs, como na hora de posar para as fotos na praia:

- Quando fica tudo igual o povo pensa que a gente é gêmea — diz ela, de 60 anos, um a menos que Poroca e seis a mais que Indaiá, enquanto toma uma água de coco, molha os pés na água e se surpreende com a força das ondas.

Elas começaram a cantar embolada e a tocar ganzá nas ruas quando Indaiá tinha 7 anos. São canções, muitas delas anônimas, algumas improvisadas, outras decoradas, e que agora vão virar disco. Junto com o filme, será lançado um CD duplo, que traz as canções originais e recriações feitas por nomes como Zé Renato, Lenine, Teresa Cristina, Elba Ramalho, Paralamas do Sucesso, Pato Fu, Braulio Tavares e Fausto Fawcett.

O filme escancara o envolvimento afetivo entre diretor e personagens — a tal ponto que o próprio Berliner se torna personagem. Ele relutou muito em aparecer, mas a relação que se estabelece entre uma das três irmãs e ele, na cena mais surpreendente do documentário, fez com que aceitasse a sugestão da equipe do filme.

— Eu acho que apareço muito — reconhece ele, meio de brincadeira, meio a série. — Mas tirei muita coisa minha.

No filme, uma delas explica a cegueira: “O povo fala que nasceu assim porque a mãe é casada com um primo. Mas eu acho que não é, não. Foi porque Deus quis mesmo.” Elas chegaram a sustentar com o dinheiro conseguido nas ruas 14 pessoas, o que motiva um irônico comentário: “Lá em casa os que não eram deficientes não trabalhavam em nada. Agora os que eram deficientes viviam trabalhando só para sustentar eles. Trabalha o feio para o bonito comer.”

Maroca parou de pedir esmola nas ruas depois de ser operada. As duas irmãs continuam, mas não estão nada contentes.

— Tô vivendo muito chateada — diz Indaiá. — O povo passa reclamando, dizendo que a gente está ganhando dinheiro com o filme, achando que recebemos cachê com a novela. Dizem que a gente enricou e que não precisa pedir mais. Mas até agora ninguém ficou rico, não.

— Quem tem boca diz o que quer — ensina Poroca. — Desde criança que a gente sofre no meio do mundo.

E a cota de sofrimentos inclui humilhações, decepções amorosas, traições em família e apertos financeiros. Maroca sente falta do último marido, assassinado a facadas em 1996. , 31 de Maio de 2005