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A PESSOA É PARA O QUE NASCE

Três irmãs cegas, estrelas de um documentário, gravam participação em América. Nesta segunda, os telespectadores de América serão surpreendidos pela presença de outros cegos na trama. Na verdade, por cegas: Maria, Regina e Conceição Barbosa. Três irmãs. Praticamente cegas de nascença, vindas de Campina Grande, na Paraíba. Cantoras de coco, de embolada, formas musicais típicas do cancioneiro nordestino. Três feras. Jatobá, o nosso promoter, marca mais um tento ao levá-las para se apresentar em Vila Isabel. Antes, porém, elas oferecem uma canjinha especial para alguns privilegiados, no apartamento dele.

No que começam a fazer sua música, as três mulheres miúdas subitamente adquirem uma nova dimensão. Crescem, impulsionadas pelo vozeirão gigantesco e impressionam pela força e pela poética:

– “Atirei no mar, o mar vazou. Atirei na moreninha, baleei o meu amor”.

Costurado a esse refrão intenso, uma colcha de retalhos multicor, tirada da memória. Versos que emocionam e contagiam, alguns improvisados, outros decorados. São fragmentos de canções e histórias que elas ouviram durante toda a vida, rimados ali no balanço dos ganzás.

Não há quem não se sensibilize diante da apresentação. Dona Lilly Marinho, que coincidentemente estava no estúdio e assistia à gravação, também se emocionou. Depois de terminada a cena, a viúva de Roberto Marinho foi abraçá-las e fez questão de fazer fotos com as três.

Talvez a cena, quando exibida, reedite para os telespectadores o mesmo impacto que provocou no cineasta Roberto Berliner, há cerca de oito anos, quando em visita a trabalho àquela cidade. Impressionadíssimo, não só pela música, mas pela história de vida delas, foi fulminado pela idéia de fazer um filme. Um filme que contasse a trajetória das três irmãs deficientes visuais que viveram toda sua vida cantando em troca de esmolas nas cidades e feiras do Nordeste do Brasil. E fizesse mais: que mostrasse, valendo-se de formato inovador, o cotidiano delas, suas estratégias de sobrevivência, seus dramas, misérias, amores e arte.

Dessa idéia, nasceu o documentário “A pessoa é para o que nasce”, que estréia 27 de maio em Brasília e Porto Alegre, 3 de junho no Rio e São Paulo e na semana seguinte em Belo Horizonte.

No ano passado, por intermédio de um amigo em comum, o diretor mostrou o filme para Glória Perez. A autora de América, que já naquela época estava às voltas com pesquisas sobre deficientes visuais para encaixar esse tema na novela, adorou o que viu. Berliner comenta como foi o contato:

– “É muito legal que a Glória esteja fazendo isso aqui agora. No ano passado, quando ela já estava escrevendo, um amigo nosso contou que nosso filme falava sobre cegueira. A Glória viu e gostou muito”. Para Roberto, falar sobre o assunto é sempre importante “e a Glória teve essa sensibilidade”. , 09 de Maio de 2005