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TvZero
CANTO, LOGO EXISTO

Ler tudo com muito trocadilho, faz favor. É evidente que “A pessoa é para o que nasce”, premiado longa de Roberto Berliner, propõe uma exploração dos sentidos. Ao contar a história das três irmãs cegas de Campina Grande, o diretor até usa cortes abruptos para telas brancas ou pretas como estímulo à empatia do espectador pela falta de visão delas. Não se trata, porém, apenas de um ensaio sobre a cegueira, sobre a escuridão.

Tendo Maroca, Poroca e Indaiá vivido — e sustentado até 14 pessoas! — cantando cocos, tocando ganzá e pedindo esmolas pela cidade paraibana, “A pessoa é para o que nasce” também se constitui num ensaio sobre a surdez, sobre o silêncio. Se nós, que enxergamos, associamos as trevas ao desconhecido, ao mal, à morte, elas são o elemento natural dos cegos de nascença. Para as irmãs Barbosa, as trevas são a ausência de som.

Maria das Neves, a Maroca, hoje com 60 anos, Regina, a Poroca, 62 anos, e Francisca da Conceição, a Indaiá, 54 anos, intuitivamente testam os limites de seu ambiente com o canto. Cantar é viver, mesmo num mundo fascinado pela própria imagem. Porque, como todos nós, as irmãs emergem das sombras, dizem suas falas e retornam às trevas. Para a eternidade, crêem os que não crêem. “O resto é silêncio”, diz Hamlet e expira.

A existência miserável das Ceguinhas de Campina Grande perigava ficar inaudita, como tantas outras. O pai sem-terra alugou seu trabalho nas fazendas da região e bebeu até morrer. A mãe, sua prima, culpada por elas pela cegueira e pela desgraceira, fazia artesanato e se casou de novo. Com um sujeito de maus bofes que era sustentado pelas esmolas recolhidas nas ruas e que seduziu Poroca. A mãe morreu em 1997. Por sua vez, Maroca também se casou duas vezes, ambas com outros deficientes visuais.

Por dez anos, seu companheiro foi o violeiro e cantador Manuel Traquiline, com quem as irmãs apareceram num “Programa legal” de Regina Casé, em 1991, imagem recuperada na TV Zero. Manuel é o pai de Maria Dalva, a Dalvinha, nascida em 1989. Ele morreu cinco anos depois. Maroca, então, casou-se com José Silvestre. Foram dois anos de um grande amor, interrompido pelo seu assassinato a facadas, diante dos olhos da amada. “Quando ele caiu, não vi mais nada”, declara Maroca, com o desapego característico. Para ela e suas irmãs, a cegueira não é um impedimento; a cegueira é.

Maroca faz blague ainda com a duração de seus casamentos. Diz que se o primeiro durou dez anos e o segundo, dois, o próximo vai durar só um mês. Ela não desistiu de encontrar outro amor. Durante filmagens em Salvador, onde as autodenominadas Ceguinhas de Campina Grande foram se apresentar no festival Percpan de 2000, Berliner tem de entrar em cena para esclarecer a natureza de sua afeição pelas irmãs porque Maroca estava se enamorando por ele. O silêncio que se segue é eloqüente, a câmera instalada no quarto o registra. Então, Maroca liga o rádio e ouve-se Roberto Carlos, “A distância”.

Por isso, em “A pessoa é para o que nasce”, tão importante quanto as imagens são os sons. Entre elas, Berliner e as irmãs reencenam o final de “Ran”, de Akira Kurosawa: os cegos andando em fila na beira do abismo. No documentário brasileiro, o despenhadeiro pode ser literal, no sertão, ou metafórico, no canteiro central da Avenida Paulista. Entre os sons, claro, há os cantos de Maroca, Poroca e Indaiá, tradicionais, anônimos, populares, quase pop. Se ouvirem falar em “raiz”, elas jobiniamente pensarão em macaxeira.

Daí a levantada de bola para a trilha sonora. Depois de irem a Brasília — a capital onde o pior cego é o que não quer ouvir — receber a Ordem do Mérito Cultural de 2004, elas chamam, sobre os créditos finais, para o disco do filme. O álbum duplo traz, no primeiro CD, as irmãs cantando seu repertório, além de alguma música original de Hermeto Pascoal e a sentida “A luz e a escuridão”, de Gilberto Gil; e, no segundo CD, releituras modernas feitas por, entre outros, Paralamas do Sucesso & B Negão, Otto, Zé Renato & Teresa Cristina, Lenine, Banda Eddie... Três, em particular, ficaram lindas: “Abra a janela”, pelo Mombojó; “Segredinho”, por Junio Barreto; e “Noite enluarada”, pelo Pato Fu.

“A pessoa é para o que nasce” testa os limites de seu ambiente (o documentário) um pouco como as irmãs Barbosa fazem no delas com as cantigas. Pela trilha sonora, ele se espraia para além do objeto filme. Pela construção, se alinha aos trabalhos que reagem à hegemonia pós-televisiva da entrevista, denunciada tanto pelo crítico americano Bill Nichols quanto pelo semiólogo italiano Umberto Eco. Decerto Berliner conversa com suas personagens, mas as observa com igual intensidade. Ele e outros diretores — como Evaldo Mocarzel, cujo “Do luto à luta”, sobre a Síndrome de Down, em breve será tema desta coluna — buscam narrativas que desnudem a falácia do documentário tipo “a vida como ela é” e reafirmem a relevância de suas vozes políticas, lato sensu.

Assim, mais uma vez, Roberto Berliner se aproxima de Maroca, Poroca e Indaiá. Nenhum dos quatro renuncia à voz como estratégia de posicionamento no mundo. , 17 de Junho de 2005