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TvZero
CONVITE À REFLEXÃO

Ao retratar o cotidiano de três irmãs cegas cantoras, “A Pessoa É Para O Que Nasce” mostra uma beleza desnuda, sem qualquer pudor.

A primeira impressão diante de A pessoa é para o que nasce, documentário de Roberto berliner e Leonardo Domingues, em cartaz no Cine Academia, é de um filme seguidor de cartilhas de sucessos recentes do cinema nacional. O primeiro plano vem embalado pela música emotiva de Ennio Morricone e nos mostra tipos brasileiros num amanhecer urbano. A música segue num crescendo e vemos as personagens surgindo de baixo da tela; a música nos envolve cada vez mais, elas se encaminham para a luz, a música torna-se arrebatadora, finalmente elas entram na luz, estão no centro do quadro – e aí temos um filme sobre a redenção através de uma trajetória de superação, como reza o cinema arrasa-quarteirão de Syd Field e seus discípulos. Bem, essa impressão dura só até o primeiro corte. Não vamos ser seduzidos por uma construção naturalista. Este é um filme sobre três irmãs cegas, que paradoxalmente, faz um convite à visão. Vamos ver a vida dessas irmãs, propõe os diretores. E descobrir como o olhar cinematográfico as transformou.

Começamos por ver como acordam, vivem, comem e dormem Maria, Regina e Conceição. Ou melhor, Maroca, Poroca e Indaiá. Para isso, vale qualquer suporte para registrar imagens: película, vídeo, um estranho ponto de vista de uma mini câmera.Faz lembrar o Big Brother? Mas não espere o padrão global dos candidatos a famosos. As irmãs de Campina Grande trazem consigo uma beleza diferente, feita de camadas de poeira das ruas paraibanas onde esmolaram, sedutora no timbre agudo das vozes que cantam no embalo do ganzá ou das comoventes canções à capela. Beleza feita de momentos trágicos, mas também alegres, de quem revela extremo apego à vida, sem se entregar à deficiência. Sobretudo, as ceguinhas se mostram belas por não terem pudores de se mostrar: já que não enxergam, não se incomodam em como os outros vêem.

O filme assume esse desnudamento como elemento narrativo metalingüístico: o espectador vê como o documento cinematográfico altera o cotidiano das personagens que se propunha a registrar. Maroca, Poroca e Indaiá tornaram-se celebridades na mídia por terem sido objeto de um programa televisivo – um episódio da série Som da Rua, o primeiro contato de Berliner com elas, que por sua vez, originou um curta metragem, que ao ser visto por Naná Vasconcelos e Gilberto Gil desemboca num convite para tocar no Percpan. Ao se tornarem “estrelas de cinema”, elas alcançam um reconhecimento artístico inédito que se desdobra em melhoria de qualidade de vida – é o filme provocando uma nova realidade, refletida pelo próprio filme numa cena antológica em que Maria pergunta ao diretor se os prêmios que o curta recebeu foram em dinheiro e o que era feito dele. Afinal, um filme é para o que nasce? E em última análise, não é para isso que nascem os filmes, para dialogar com o mundo que retratam?

Em tempos de Michael Moore (Fahrenheit 11 de setembro) e Morgan Spurlock (Super Size Me – A dieta do palhaço), de documentaristas ávidos (e não avessos como antigamente) por estar à frente das lentes, Roberto Berliner surpreende pela delicada abordagem da sua relação com personagens com quem conviveu durante oito anos, tempo suficiente para que uma das irmãs se apaixonasse por ele. Como define o próprio diretor, A pessoa é para o que nasce é um filme sobre o amor - mas o plural talvez seja mais preciso. Desfilam na tela os amores de Maria – casada duas vezes; o amor que une as três irmã, que assume sua faceta Nelson Rodrigues em um momento de traição; e o amor profundo pelo cinema e sua capacidade transformadora, impresso em cada fotograma e em cada corte profundo de sua estática provocadora., 04 de Junho de 2005