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VISÃO DA FANTASIA

“Dos mistérios do universo/ A luz e a escuridão/ Fazem par verso e reverso/ nos percursos da visão./ A luz que corta qual faca/ Afiada e bem precisa/ E a escuridão, faca cega/ Que só apalpa e alisa”, cantou Gilberto Gil às três irmãs, Maria, Regina e Francisca da Conceição Barbosa, personagens do documentário “A pessoa é para o que nasce”, do carioca Roberto Berliner. Na tela do cinema Dragão do Mar, o cotidiano das paraibanas tocadoras de ganzá. Na platéia, espectadores que compartilham com Maroca, Poroca e Indaiá (apelidos carinhosos das três irmãs) a impossibilidade de ver, pelo menos, no sentido que compreendemos. O cinema, adição de imagem em movimento e som, é recebido como um portão à fantasia pelos deficientes visuais.

“A pessoa é para o que nasce” foi o ganhador de melhor filme na edição deste ano do Cine Ceará. O diretor Roberto Berliner acompanha as “Ceguinhas da Paraíba”, como ficaram conhecidas, desde 1997, a partir da realização do programa de TV, “Som da Rua”, depois de um curta-metragem e, agora, de um longa.

Quarta-feira passada, o Cine Dragão do Mar e o instituto Dr Hélio Góes Ferreira levaram à sala de cinema sete deficientes visuais. A diretora Josélia Almeida e outros professores da organização acompanharam a sessão. Estes transformaram-se em narradores, apontando alguns detalhes da história que não podiam ser captados pela audição.

Durante a sessão, reações durante toda a narrativa, risos, brincadeiras e algumas decepções. “O melhor foram os comentários. A Carlizeth perguntou como eram as irmãs. Eu disse que elas eram morenas. Só não sei que idéia da cor morena ela tem, já que tem cegueira congênita”, explicou a diretora. Carlizeth, a mascote de turma, parecia a mais empolgada. Era para tanto. Afinal, foi a primeira vez que ela entrou em uma sala de cinema. Na cena, quando Maroca, a irmã mais velha, insistia em receber uma foto do filho do diretor Berliner, Carlizeth se perguntava: “Para que ela quer uma foto?”.

Emocionada ficou Dona Edite, que não completou nem um mês da perda da sua visão. “Sinto saudades dos filmes que eu vi, mas hoje já estou mais conformada”, assume ela. A ida ao cinema também foi a primeira, após a deficiência visual. “Mas assisto sempre televisão. Inclusive aquela novela das oito, que passa às nove horas, que tem aquele cego, interpretado pelo Marcos frota.”

Era de Jatobá, que Edite falava, da novela “América”, de Glória Perez. o personagem, sempre em alto astral, é um atleta de 40 anos, cego desde os 20. A pequena Bruna Marquezine também vive uma deficiente visual, a personagem Flor. As cantoras de coco de embolada Maroca, Poroca e Indaiá também ilustraram a ficção na telinha, em participação especial.

Alto astral também acompanha Dona Francisca. No final do filme, quando tomou conhecimento por sua narradora que as três irmãs tomavam banho de mar sem roupa, Francisca exclamou ao colega: ‘Seu Tarcísio, feche os olhos.” Risos não foram poupados.

Dona Francisca está sem enxergar há oito anos. Agora, com seus 78, o prazer maior é a dança. “Eu não fico encostada em um canto, não. Eu faço. lavo minhas roupas e ainda faço um pouco de crochê, mas o que eu gosto mesmo é de dançar.” No instituto? “Lá em casa ou em qualquer lugar. Às vezes, fico dançando sozinha em casa. Só tenho vergonha que um dos meus filhos veja e pense que eu não estou regulando bem”, comenta D. Francisca e conclui: “nunca deixo a solidão tomar conta de mim”.

Ruthilene Sousa, coordenadora da escola e uma das narradoras durante a sessão, comenta que é bom indicar alguns momentos que os deficientes visuais não conseguiram captar. “Como na hora, que Maroca vai ao cemitério rezar pelo seu marido. Existem filmes descritivos que já fazem essa função do narador”, explica Ruth. A coordenadora está falando de filmes co “áudio descritivo”, especial para pessoas com deficiência visual. No Brasil, o primeiro DVD lançado com este sistema foi “Irmãos de fé”, de Moacyr Góes.

Consenso entre os espectadores da sessão especial foi o triste retorno das irmãs, depois do período da fama no festival de percussão PercPan, a pedir dinheiro nas ruas. Cada um deles, tem uma história para contar da impressão de pessoas que os associavam a pedintes, pelo fato de serem também deficientes visuais.

Helô Sales, promotora de eventos e professora de teatro do instituto também acompanhou a sessão especial. “Eles criam seus personagens. Entram em um mundo da fantasias. Não têm a visão, mas os outros sentidos são aguçadíssimos”, comenta. Diariamente, Sales trabalha com seus alunos questões da arte: dança, teatro, música e cinema dentro do projeto de cultura “Tudo a ver”. “Quando entrei para o instituto, minha visão em relação ao cego mudou. Todo mundo enfrenta limites todos os dias e muitas vezes não conseguimos superar. Eles se superam a todo momento”, completa a professora.

SERVIÇO: “A pessoa é para o que nasce”, de Roberto Berliner. Cinema Dragão do mar, às 16h e 20h. Levando 1kg de alimento é garantida a meia no ingresso. No Domingo, para quem levar o cupom do jornal Diário do Nordeste, a acompanhante entra de graça., 24 de Junho de 2005