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CANTO QUE EMOCIONOU SALVADOR

Na noite de quinta-feira, os tambores do 7º Panorama Percussivo Internacional (PercPan) trocaram o cenário da Praça campo Grande, local da abertura na véspera, pelo confortável Teatro Castro Alves. O programa foi impecável, mas não sensibilizou o público baiano deixando metade da platéia vazia. Azar de quem não foi, porque houve momentos memoráveis nas duas horas e meia de espetáculo co cinco atrações, três brasileiras – Fafá de Belém e a Flor do Cheiro, Pegapacapá com Cássia Eller, as Ceguinhas de Campina Grande – e duas africanas, os pigmeus Nzamba Lela Aka da Reapúclica Centro Africana e as Map Marimba Girls Plus, de Botswana, África do sul.

Gilberto Gil e Naná Vasconcelos, os diretores artísticos do PercPan, abriram a noite cantando o hino do festival do ano passado. Logo entraram as crianças da Flor do Mangue, um projeto de ajuda a crianças carentes de Olinda, que cantaram com Naná uma canção infantil. Então entrou a exuberante Fafá de Belém com um vestido curto cheio de fitas para cantar um tema do Boi Caprichoso e o carimbó Esse pranto é meu.

O grupo Pegapacapá entrou em cena em seguida com uma poderosa batucada apoiada por guitarra, baixo e teclado (num festival de percussão, eles são A Cozinha). A banda, formada para o festival, tem como solistas as percussionistas Lanlan, Thamyma Brasil e João Viana, mais a poderosa voz de Cássia Eller, que também tocou berimbau e pandeiro. Além dos instrumentais, a banda tocou e Cássia cantou Com el água, de Cameron da La Isla e Coronel Antonio Bento, do repertório de Tim Maia.

Na seqüência, Gil cantou uma bela saudação para a emoção da noite, as irmãs Ceguinhas de Campina Grande, Poroca, Lia e Indaiá, trazidas ao palco por uma filha e uma sobrinha. Elas foram sentadas no centro do palco e nada aconteceu. Gil foi saber o que estava acontecendo e elas disseram que estavam esperando alguém buscar seus ganzás (chocalhos cilíndricos de metal). As irmãs são cegas de nascença e nunca saíram da Paraíba. As três foram tema de um documentário premiado de Roberto berliner. Sua arte é coco transmitido pela tradição oral, a maioria com um toque de humor e ainda algumas canções românticas, às vezes entoadas a capella. “Estou muito emocionada, nunca imaginei vir aqui cantar, parece que estou dormindo, estou sonhando”, disse Indaiá. E atacaram o primeiro coco, com o refrão “Atirei no mar/ o mar vazou/ atirei na moreninha/ baleei o meu amor”, um outro era puxado por “Tamanqueiro/ eu quero um par/ eu quero um par/ eu quero um par de tamancos par eu andar”. Entre uma canção e outras deliberações das três em voz baixa, às vezes discussões, mas a platéia só ouvia uns resmungos e de vez em quando uma troca de frases como “você não sabe cantar essa”. Foi a emoção da noite. Tanto que Gil escreveu uma poesia para as três irmãs.

Naná e Gil entraram depois para anunciar os pigmeus nômades, procurados por eles para o PercPan há mais de quatro anos. São 12 músicos e dançarinos – sete homens e duas mulheres com alturas que variam de u metro a 1m50. Eles dançam e cantam músicas rituais usando instrumentos rústicos como um galho de árvore dobrado na forma de harpa antiga com uma única corda, um tronco de árvore fino percutido por seis músicos e dois tambores pequenos. As mulheres cantam e dançam, os instrumentos são tocados apenas pelos homens. Ontem de manhã a segurança do Hotel tropical veio pedir ajuda à produção para explicar aos pigmeus que eles não podiam sair dos quartos e deixar as portas escancaradas.

Depois dos pigmeus, a sinfonia das marimbas do grupo Map Girls Plus que, apesar do nome, tem homens entre seu sete componentes. Eles tiraram um som completamente inusitado de marimbas primitivas feitas inteiramente de madeira, em verdadeiras sinfonias compostas pelo maestro e líder do grupo Alport Mhlanga, do Zimbabwe. São ricas combinações de timbres altamente dançantes.

O PercPan continua hoje à noite com apresentações das bahianas Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes, que cantarão uma espécie de opereta especialemente criada para o festival; Lenine e o Pife Muderno; Hassan Hakmoun, do Marrocos; e a delegação jamaicana com Rita Marley e os grupos Blue Glaze Mento e Dalvey Kumina Group. O festival termina amanhã com um show reunindo as 13 atrações do PercPan. O festival está na sétima edição e este ano terá apresentações em São Paulo nos dias 19 e 20 próximos e Paris, em maio, só com artistas brasileiros., 15 de Maio de 2001