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NA ONDA DO DOCUMENTÁRIO

A produção brasileira de documentários vive um momento forte de expansão. Dos 50 títulos nacionais lançados nos cinemas em 2004, 20 eram longas do gênero. Em 2000 foram apenas seis. Isso sem contar o crescente número de produções que vão diretamente para a televisão.

Na verdade, o boom ocorre em todo o mundo. Nos EUA, “Fahrenheit 11 de setembro”, de Michael Moore, que custou apenas US$5 milhões, rendeu U$100 milhões. Portanto, vinte vezes mais. Vale comparar esses números com dois Blockbusters de ficção: “Homem Aranha 2” custou US$200 milhões e rendeu US$400 miulhões nos EUA. Duas vezes mais; “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, custou US$30 milhões e rendeu US$370 milhões. Doze vezes mais.

O extraordinário sucesso do filme de Moore, o segundo documentário a conquistar a Palma de Ouro em Cannes e o primeiro a atingir a cifra de US$100 milhões nas bilheterias norte-americanas, constitui exceção. Em geral, as outras produções do gênero têm desempenho modesto no poderoso mercado americano.

No Brasil, os valores de bilheteria continuam baixos, apesar de, nos anos 80, o gênero ter mostrado sua capacidade de diálogo com grandes platéias, como mostra o sucesso de ‘Mundo Mágico dos Trapalhões” (1.891.425 espectadores), “Jango (850 mil) e “Os anos JK” (650 mil), todos de Sílvio Tendler. Aumentar seu público é, portanto, o grande desafio para o cinema documental brasileiro, que atualmente tem mais de 70 filmes em fase de produção, finalização e distribuição.

AS CAUSAS DO BOOM

Por que o país vive essa febre de produção documental? Que fatores explicam este aumento? Ele é reflexo do boom mundial? Conseqüência da democratização trazida pelas novas tecnologias digitais? Ou se deve ao barateamento dos custos de produção? E qual a responsabilidade da Condecine, contribuição ao desenvolvimento do cinema em forma de taxa, paga à Ancine, pelas operadoras de TV por assinatura? Os 3% de impostos devidos pelos canais a cabo, território dominado pelo produto estrangeiro, estão favorecendo o conteúdo nacional?

Com 40 de seus 70 anos de idade dedicados a documentários, Vladimir Carvalho resume bem os fatores que levam ao crescimento do gênero no Brasil: o baixo custo, as novas tecnologias, a taxa Condecine e o boom mundial. “Mas o que aconteceu de mais importante foi a descoberta do documentário pelo público, hoje altamente qualificado e exigente. Há uma evidente procura por filmes que trabalham mais próximos da realidade”, acrescenta.

Conceição Senna, que prepara o lançamento de seu primeiro longa, “Brilhante”, completa: “O bombardeio da ficção, com as centenas de filmes recheados de mosntros e seres surrealistas, cria em parte do público uma fome de realidade, um desejo de ver a vida como ela é”.

Segundo Rogério Corrêa, que conclui “Santa Cecília, inquietações” acompanhaMOS O “nascimento de consciência planetária”, que nos diz ser necessário debater os valores humanos.

Nesse sentido, o Brasil aparece como um campo bastante fértil para o crescimento do cinema documental, na medida em que se leva em consideração a coexistência no país de uma vasta riqueza natural e humana e uma degradação social evidente na radical desigualdade social existente. O que não faltam aqui são situações, locais, personagens para serem retratados.

Denise Garcia, que estréia como diretora com “Sou feia, mas to na moda”, acredita haver uma procura por parte do público por produções que dão a visibilidade a segmentos marginalizados: “No caso do funk, tive a impressão inicial de que aquelas pessoas não se sentiam vistas”.

Os recursos da Condecine, que também foram apontados por Carvalho como um dos impulsionadores do boom, já fomentam seus primeiros projetos. Foi assim que surgiu a série sobre Chico Buarque, de Roberto oliveira, exibida pela Direct TV e, “Sete vezes Bossa Nova”, projeto em andamento. Deve ainda ser produzida “Futebol”, série que terá direção de José Roberto Torero, João Sales, Kiko Goifman e Beto Brant, entre outros.

Muitos documentaristas defendem ainda a redução dos custos e as novas tecnologias entre os fatores que levam ao aumento da produção: “Um documentário custa infinitamente menos que um filme de ficção”, explica o cineasta Walter Carvalho.

Por outro lado, Roberto Berliner, que em breve lançará o “A pessoa é para o que nasce” e que prepara sua estréia na ficção com “A senhora das imagens”, não acredita na existência desse “momento especial” do documentário brasileiro: “Acreditarei quando contarmos um filme que venda um milhão de ingressos. Recentemente um filme importante como “Entreatos” vendeu pouco mais de 20 mil ingressos (...) Nossa produção é boa, muito boa. Mas os filmes não chegam ao grande público.”

O crescimento da produção realmente não tem sido acompanhado na mesma proporção por um crescimento nas bilheterias. Apesar do sucesso de “Pelé Eterno”, que teve cerca de 258 mil espectadores, nenhum outro documentário lançado no ano passado teve público acima de 30000 pessoas, segundo dados do Filme B.

AS NOVAS PRODUÇÕES

Atualmente há mais de 70 documentários em fase de produção, finalização e distribuição no Brasil. Uma grande parte deles retrata personalidades, principalmente ligadas ao mundo artístico, enquanto outra se dedica a temas sociais e de comportamento.

Entre as “biografias” estão “Santos Dumont” e “Pereio, eu te odeio”. Enquanto Nelson Hoineff mergulha fundo na história do herói brasileiro triste face, que se suicidou no Guarujá, Allan Sieber procura fazer um retrato do mais iconoclasta de nossos atores.

Dois filmes tratam de escritores. Miguel faria Jr. Fala de Vinícius de Moraes e Vladimir Carvalho termina seu mergulho em José Lins do Rego e, por meio dele, nos engenhos e usinas de sua Paraíba natal.

Nelson Pereira dos Santos, Paulo Thiago e Paulo Boccato preferiram debruçar-se sobre a música. O primeiro, que já teve Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda como tema, agora se dedica a Antônio Carlos Brasileiro Jobim; Paulo Thiago finaliza “Coisa Mias linda”, viagem pelo mundo da Bossa nova; e Boccato fala dos Demônios da Garoa, em “São Paulo dos Demônios”.

O novo filme de Ugo Giorgetti também fala da cidade de São Paulo, por meio de suas maiores paixões, a pizza – pretexto para documentar a cidade, suas características culinárias, características sociais e psicológicas. Para isso, Giorgetti já ouviu dezenas de pizzaiolos de estabelecimentos situados nos bairros burgueses e na periferia.

Toni Venturi, de “Cabra - Cega”, também documenta São Paulo, mas discutindo exclusão social e a questão dos sem tetos em “Dia de festa”. Também trabalham com a temática social Manfredo Caldas, que filma remanescentes de um quilombo plantado no cerrado brasiliense em “Kalunga”, e Evaldo Mocarzel, que tem dois longas prontos para lançamento: “Mensageiras da luz” – sobre pessoas com Síndrome de Down – e atualmente filma “À margem do concreto”,segunda parte da teatrologia sobre marginalidade.

João Jardim preferiu usar como tema o comportamento do adolescente dentro da escola em que estuda. “Filmei em sete colégios, sendo dois particulares e cinco públicos, no Rio, SP e interior de Pernambuco”, conta ele, que deve concluir a produção no segundo semestre. “O filme [‘Para o dia nascer feliz’] nasceu de uma necessidade de entender melhor que o país é tão desigual”, explica.

“Utopia e Barbárie” e “Milton Santos ou O mundo global visto de cá” são os dois projetos que Silvio Tendler finaliza atualmente. O primeiro fala sobre os sonhos da geração que quis mudar o mundo nos anos 60, enquanto o segundo discute a globalização, por meio do geógrafo e professor da USP falecido em 2001.

Já Carlos Alberto Prates Corrêa, que não dirige um longa desde “Minas Texas” (89), trata do próprio cinema em “Castelar e Nelson Dantas no país dos generais”, evocando uma Belo horizonte habitada por jovens cinéfilos prestes a transformar em “fazedores” de filmes. Foram convocados para ajudar ( e aprender com ) Roberto Santos (“Hora e vez de Augusto Matraga”) e Joaquim Pedro de Andrade (“O padre e a moça”).

MULHERES

As mulheres continuam ampliando sua atuação no cinema brasileiro, e não apenas no campo da ficção. Só Izabel Jaguaribe está envolvida na produção de dois documentários: “O corpo do rio” e o “Barra way of life”, que devem dar o que falar.

|Muitos dos filmes feitos por mulheres tratam de temas do próprio sexo feminino, como “As meninas”, que traz Sandra Werneck de volta ao gênero, registro do mundo das garotas que engravidam na adolescência. Denise Garcia abraça a vida das “Cachorras” do funk carioca. O filme “Sou feia mas to na moda” traz os créditos da Toscographics, produção de Sieber e Garcia. A dupla quer fazer filmes “toscos como funk e como toscographics. Crus, simples e diretos”. Na linha do dogma 1,99, manifesto lançado por Sieber, em Gramado, quando mostrou “Deus é pai”, umas das produções mais baratas da história brasileira.

Lúcia Murat examina em parceria com Dudu Miranda “O olhar estrangeiro”, tomando como ponto de partida o livro “O Brasil dos gringos: Imagens no cinema”, de Tunico Amâncio. Com imagens e depoimentos colhidos na França, Suécia e EUA, a dupla documenta clichês fantasias impressos por estrangeiros em filmes como “Anaconda”, “O homem do Rio”, “Lambada – A Dança Proibida” e até no oscarizado “Orfeu do Carnaval”.

A atriz Conceição Senna também usa o próprio cinema em seu longa “Brilhante”, espécie de making of póstumo de “Diamante Bruto”, terceiro longa da Orlando Senna.

Tetê Moraes e Martha Alencar preferiam falar de política em “O Sol”, o jornal alternativo de Reynaldo Jardim, que Caetano Veloso cantou em “Alegria, Alegria” (“O sol nas bancas de revista/ me enche de alegria e preguiça”).

SALA DE ESPERA

O cinema documentário não tem a mesma facilidade da ficção para encontrar exibidores. Liliana Sulzbach (“O cárcere e a rua”), Erika Bauer (“Dom Helder, o santo rebelde”) e Mônica Schmiedt (“Extremo sul”, em parceria com Sylvestre Campe) preparam o lançamento de seus longas de estréia.

Com “Atos dos homens”, Kiko Goifman, diretor do inventivo “33”, busca sobreviventes de massacres ocorridos no Brasil. Sua intenção é “registrar versões além das oficiais” e avançar em sua proposta estética “Vou realizar aquilo que Jean – Claude chama de ‘documentário de busca’. O filme será feito em digital, trazendo em seu corpo os próprios processos de busca e localização. É impossível fazer um making of do documentário na medida em que esse está inserido em seu corpo principal”, explica.

No campo dos documentários de maior ousadia estética, que investem na pesquisa de linguagem, destacam-se Joel Pizzini, que prepara o lançamento de “500 almas”, Erick Rocha, com “Intervalo Clandestino”, Cao Guimarães, com “A alma do osso”, e Roberto Berliner, com “A pessoa é para o que nasce.” , 06 de Abril de 2005