link_home
TvZero
HERDEIRAS DE CHICO ANTÔNIO

O fascinante cotidiano das cegas Maria, Regina e Conceição, um trio de cantadoras da Paraíba.

Na semana passada, finalmente chegou às salas de cinema “A pessoa é para o que nasce”, o documentário de estréia de Roberto Berliner. Sua versão curta vencera a competição brasileira do É tudo verdade 1999, entre outros triunfos. O longa passou por Amsterdã 2003, abriu o É tudo verdade no ano passado, entrou em cartaz em Nova York e foi no último mês assunto da telenovela “América” e do “Altas Horas” de Serginho Groisman.

Há muitas camadas em “A pessoa é para o que nasce”. A modernidade de sua estruturação e das discussões que levanta desafia leituras ligeiras. Roberto berliner documenta o cotidiano e a evolução das vidas de Maria, Regina e Conceição, um trio de cantadoras de coco da Paraíba. São três irmãs cegas, nascidas entre 1943 e 1950, que representam uma geração posterior à do mais importante cantador de coco registrado pelo cinema, o potiguar Chico Antônio (1904-1993). Descoberto por Mário de Andrade, como podemos ler no estupendo “Vida do cantador” (Vila Rica, 1933), Chico Antônio foi fotografado pelo mestre modernista para quase total esquecimento, até que, no início dos anos 80, foi redescoberto, dando origem ao disco “No balanço do ganzá” e ao documentário de Eduardo Escorel, o belo clássico “Chico Antônio, um herói com caráter” (1983).

Suas três legítimas herdeiras viveram trajetória semelhante, agora a um só tempo sintetizada e debatida em “A pessoa é para o que nasce”. Durante a histórica Caravana Farkas de meados dos anos 60, elas foram filmadas por Geraldo Sarno para “Jornal do Sertão” (1966). Em 1981, um registro local em vídeo lembrou-as em “As cegas”. Durante a realização de sua premiada telessérie “Som da rua”, Berliner redescobriu-as nos anos 90, dando origem ao curta que germinou no longa homônimo.

“A pessoa é para o que nasce” vai muito além de retratá-las em sua existência de imensas privações e tocantes dramas familiares. Radicalizando as lições da escola antropológica do cinema-verdade, segundo Jean Rouch, Berliner explicita a intervenção do aparato cinematográfico em suas vidas e discute o impacto da absorção de sua arte e de suas histórias pela indústria cultural brasileira contemporânea. Tudo com notável transparência, rara entrega e incrível talento narrativo.

O filme se estrutura cronologicamente marcando os sete anos de sua filmagem: a consagração do primeiro curta, a partir de 1998; a segunda onda de estrelato, com a participação no PercPan 2000 ao lado de Gilberto Gil e Naná Vasconcelos, em Salvador e em São Paulo; o refluxo da onda de celebridade, com a volta à vida pobre na Paraíba, agora numa casinha própria, mas ainda com providenciais expedições ao pedido de esmolas na rua, em 2002 e 2003; por fim, já após os primeiros créditos de encerramento, a consagração oficial, com o recebimento da Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente Lula, em Brasília, no ano passado.

Maria, a irmã do meio, lidera o trio e protagoniza naturalmente o filme. Ela desarma qualquer possibilidade de paternalismo ao ironizar o próprio Berliner logo de saída, dizendo para a câmera e as irmãs: “Ele tá pensando que tá conversando com crianças.” Maria demonstra crescente compreensão do projeto ao indagar, mais adiante, como surgiu a idéia, ao afirmar que se engajou nele não por dinheiro, mas “para ficar conhecida” e mais tarde, ao perguntar como foi repartido o dinheiro dos prêmios gerado pelo celebrado curta. Faz piada ainda sobre o acúmulo do material rodado dizendo: “Este filme vai ficar grande”.

Berliner é quase obsessivo ao revelar os dilemas éticos enfrentados pelo filme a cada novo patamar dramático. Quando Maria faz uma declaração de amor envergonhada e indireta a ele, insere-se de vez no processo ao filmar uma tensa cena no quarto de hotel em que dissipa a confusão, explicando para Maria e irmãs gostar de todas igualmente, “como pessoas especiais e diferentes”.

Quais os limites para se devassar a intimidade de três mulheres cegas de origem humilde e escassa experiência do mundo do espetáculo? É uma adaptação dos questionamentos que desafiaram Ferderick Wiseman ao rodar “Tittticut Folies” (1968), num hospital psiquiátrico americano ou Nicholas Philibert ao filmar as crianças na França profunda em “Ser e ter” (2002). aqui, um pacto extremamente corajoso constrói-se e revela-se no decorrer do filme, até o ápice do desnudamento para as câmeras com a concretização na cena final do sonho de nadar no mar das três irmãs.

“A pessoa é para o que nasce” valoriza para hoje e registra para a posteridade e o talento musical de três excepcionais cantadoras de coco. Discute a ferocidade com que a indústria cultural avança sobre a arte popular. desfaz confortos e certezas quanto às fronteiras do filmável. Reafirma a barbárie cultural e social brasileira. Numa palavra, é um filmaço. , 12 de Junho de 2005