link_home
TvZero
UMA OUTRA FORMA DE BELEZA

Roberto Berliner fala por que “A pessoa é para o que nasce”, em cartaz no Rio, tem causado muita reação por expor as irmãs cegas

Em cartaz atualmente no Rio, o documentário “A pessoa é para o que nasce” teve um longo processo de produção. Desde que o diretor Roberto Berliner encontrou Maria, Regina e Conceição - muito mais conhecidas como Maroca, Poroca e Indaiá – as três irmãs cegas de Campina Grande, até elas virarem protagonistas e seu filme, se passaram oito anos. “É, realmente uma das maiores foi saber quando parar de filmar”, assume o diretor.

Roberto teve o primeiro contato com as irmãs cantadoras/pedintes quando foi fazer, em 1997, o programa de TV “Som da rua”. No ano seguinte, começou as filmagens de “A pessoa ...” e, em 2000, achou que estaria pronto.

“Montamos e chamamos o fotógrafo, que dormiu com 15 minutos de exibição. Quando estávamos em plena crise, recebemos o telefonema da produção do festival PercPan dizendo que elas iam tocar lá. Então, resolvemos dar uma travada na edição e, se até ali o roteiro estava claro, fomos simplesmente atrás do que ia acontecer”, conta.

De sua exibição no Festival de Cinema do Rio de 2004 para a versão atual, a que está nas telas, também houve mudanças. Algumas intervenções musicais e um acréscimo em seu final, com cenas da homenagem que as irmãs receberam em Brasília ,do próprio presidente Lula, foram alguns enxertos. “Este filme foi um verdadeiro aprendizado para fazer o próximo”, diz.

Outras importantes alterações, ou melhor, aquisições neste espaço de tempo foi a entrada da Globo Filmes, seu merchandising na novel “América” – as irmãs participaram de cenas no núcleo dos cegos – e a produção de um disco.”Nunca quis fazer documentários de gueto e sim coisas bem populares. Fiz cópias do filme e enviei para Daniel Filho, Guel Arraes, todo mundo. Como ninguém assistiu, passei a insistir até que o Guel indicou para o apoio. Eles deixaram bastante claro que não era o tipo de filme que apoiavam, que só o fariam pela qualidade”, conta.

Roberto diz, no entanto, que a participação na novela não teve nada com a Globo Filmes. “Através do Alex Lerner, da TV Zero, tivemos contato com a Glória Perez, que adorou o filme disse que iria incluí-las de alguma forma. Resolvemos esperar a novela estrear para poder lançar o filme”, diz.

O disco será lançado, na próxima semana, pela própria produtora de Roberto, a TV Zero. É uma edição dupla, onde o primeiro cd tem 19 faixas com Maria, Poroca e Indaiá cantando, com participação de Hermeto Pascoal em algumas faixas. O CD 2 tem todo o repertório que elas recolheram do domínio popular, só que relidos por artistas como Paralamas do Sucesso, B Negão, Mombojó, Silvério Pessoa, Lula Queiroga, Pato Fu, Bráulio Tavares, Otto e outros.

Relacionamentos Estreitos

Os grandes debates que “A pessoa é para o que nasce” vem provocando são sobre o envolvimento extremado do diretor com as irmãs, a exposição pública delas - uma das cenas mais comentadas é quando elas tomam banho de mar nuas – e o quanto a presença dele e de sua equipe poderiam ter mudado suas vidas para melhor ou não. “A vida delas está totalmente exposta no filme. Quanto à cena da nudez, foi uma questão simbólica, achava que podia mostrar como elas são pessoas lindas independentemente de seus corpos. E como essa outra beleza fazia parte de uma outra maneira de fazer cinema. Até minha equipe ficou chocada quando falei da minha idéia, mas quando perguntei se elas fariam, disseram: Caro! A cena incomoda, sim, porque elas são magrinhas e gostosas”, afirma, lembrando que a cena foi realizada em 1998 em Tambaba, uma praia de nudismo. Outra questão delicada do filme é quando Roberto deixa à mostra a paixão que Maria nutre por ele. “Isso causou uma reviravolta na minha cabeça, Porque ela começou a dar sinais de que estava apaixonada de forma sutil, mas chegou uma hora em que quase fica insuportável. Era uma história emblemática, mas ficou complicado quando o Leo (Leonardo Domingues, co-diretor e montador) insistiu para que eu virasse personagem. Demorou, mas eu aceitei. É uma cena cruel sim, quando eu explico para ela que sou casado e toda aquela coisa. Mas tudo isso é da natureza humana. Uma hora depois disso eu chamei Maria para conversar – o que não foi incluído no filme – e a partir dali tudo ficou claro”, garante.

As Ceguinhas de Campina Grande circulam atualmente pelas cidades onde o filme é lançado e têm recebido convites para shows. “Elas vão se apresentar em Brasília e Rio nas próximas semanas”, informa Roberto. O diretor diz que, independente disso, ele mantém contato com elas por telefone e fala como está a vida delas atualmente: “ Elas não estão mais naquela casa, aliás, já mudaram umas oito vezes. Hoje moram separadas: Maria está numa casa alugada com a filha, Dalvinha e o marido Ismael, eles tiveram um filho, hoje com seis meses. Indaiá e Poroca estão morando de favor na casa que era delas, porque a deram para uma outra irmã que tem oito filhos”, conta. , 10 de Junho de 2005