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TvZero
O CANTO DA CEGUEIRA

Já nos primeiros minutos de projeção, "A pessoa é para o que nasce" nos prega uma peça: a tela escurece e todos na sala reclamam. É a pura demonstração de como a total ausência de imagens incomoda o homem pós-moderno. E mesmo depois de mais de uma hora de filme - de um documentário excepcional, na verdade - continuamos a ser surpreendidos. Em nenhum momento o diretor Roberto Berliner apela para as emoções gratuitas, e realiza um testemunho não cansativo e até engraçado - isso mesmo, o humor também está presente - sobre a vida de três irmãs cegas que cantam e tocam ganzá em troca de esmolas nas ruas do Nordeste.

Tão regional quanto universal, "A pessoa é para o que nasce" prova que a cegueira pode suplantar quaisquer obstáculos, sendo esta uma espécie de paraíso dos sentidos e sentimentos, onde a própria escuridão é a maior fonte de inspiração. Tudo começou em 1997 durante as filmagens de uma série de TV chamada "Som da Rua", sobre músicos anônimos, quando Roberto Berliner conheceu as irmãs Regina, Maria e Conceição. Na época, elas não cantavam mais nas ruas, pois haviam perdido seus ganzás. Então, não tardou para a produção providenciar novos instrumentos e o diretor ouvir a fantástica história de vida das três cegas paraibanas, que envolve traições, incestos e até assassinato.

Fascinado com o canto e a vida de Maroca, Poroca e Indaiá - como são conhecidas na vizinhança - Berliner decidiu que as "ceguinhas" seriam o tema de seu próximo filme. Assim surgiu, em 1998, o curta-metragem "A pessoa é para o que nasce", com seis minutos de duração, tornando-se vencedor de vários prêmios nacionais e internacionais. A repercussão foi tão grande que partiu-se para a produção do longa-metragem homônimo. Hoje, a música das três irmãs cegas de Campina Grande já é conhecida entre Gilberto Gil e Naná Vasconcelos, tendo participado do festival de percussão Percpan em meio a atrações de artistas profissionais do Brasil e do mundo.

Lançando mão da edição ousada de Leonardo Domingues - que em muitos momentos chama a atenção do espectador ao colocar a escuridão na tela, numa breve transposição ao que seria o universo mágico da cegueira - o documentário mergulha nos afazeres cotidianos destas mulheres e revela suas curiosas estratégias de sobrevivência, da qual participam parentes e vizinhos. Além disso, é engraçado ver a reviravolta inesperada que o cinema fez na rotina de Maroca e companhia, transformando-as em celebridades assediadas. Sem contar com os impagáveis números musicais que as três nos oferecem sem medo ou pudor. Com cada rima mais genuína que a outra, as "ceguinhas" transmitem toda a sua essência e emoção num filme em que documentarista e personagens ainda confrontam-se com os laços afetivos que surgem entre eles.

Não é à toa que Maroca, a mais velha das irmãs, dispara algumas vezes a frase "a pessoa é para o que nasce". Sábia, ela tem toda a razão. As cantoras cegas de Campina Grande nasceram para saber e nos ensinar, e tiveram o seu destino cumprido. Graça, sofrimento, paixão, força e canto independem de classe social, e muito menos de visão. A PESSOA É PARA O QUE NASCE Ficha Técnica: Gênero: Documentário Duração: 84 min Ano de Produção:2004 Estúdio: TV Zero Direção: Roberto Berliner Roteiro: Maurício Lissovsky Produção: Jacques Cheuiche e Leonardo Domingues Fotografia: Jacques Cheuiche Edição: Leonardo Domingues

por Walter Dhein , 23 de Junho de 2005