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PARA VER O INVISÍVEL

Alunos do Instituto Hélio Góes, ligado à Sociedade de Assistência aos Cegos, foram ao Espaço Unibanco, no Centro Dragão do Mar, conferir o filme A Pessoa é para o que Nasce, documentário com foco na vida de três deficientes visuais tocadoras de ganzá. Entre pipocas e refrigerantes, sentidos aguçados, risos, visão crítica

Ethel de Paula da Redação

Extensão do tato, as bengalas de metais, dobráveis, demarcam espaço em zigue-zague, abrem caminho. Autônomos, os deficientes visuais do Instituto Hélio Góes, ligado à Sociedade de Assistência aos Cegos, apressam o passo rumo à sala escura, visivelmente ansiosos. Para ''ver'' o filme A Pessoa é para o que Nasce, em cartaz no Espaço Unibanco Dragão do Mar, aguçam todos os sentidos, querem aumentar o volume e fazem do trio de professores-acompanhantes seus ''tradutores'' em tempo real. A eles, perguntam detalhes de cada cena: como é o ambiente em foco, que cores têm as roupas dos personagens, qual o tipo físico de cada um. ''Ouço e pergunto, ouço e pergunto, daí meu cérebro se encarrega de formar as imagens. A gente não vê só com os olhos. Muita gente que tem visão não enxerga o que a gente enxerga, justamente porque não tem criatividade'', avisa o ex-caminhoneiro Antônio Rodrigues, que perdeu a visão há dois anos, mas ainda ousa pôr o carro da esposa na garagem.

Logo à entrada, dá na vista o bom-humor. ''Vamos ficar no centro da sala, que é onde dá pra ver melhor'', dispara José Paes, cego há precisos 2 anos e 10 meses. ''Só não quero ninguém alto na minha frente'', emenda o colega Raimundo Nonato. Na tela, a história real das três irmãs paraibanas, tocadoras de ganzá e cegas de nascença, é motivo de riso e reflexão crítica. Carlisete Campos, 31, cega desde a primeira infância, não entende como as chamadas Ceguinhas de Campina Grande, nacionalmente conhecidas graças ao filme, chegaram a tocar ao lado do ministro da Cultura e compositor Gilberto Gil, mas acabaram retornando às ruas de sua cidade-natal para pedir esmolas. ''Foi ruim elas terem perdido a fama no final. Apesar disso, a gente vê que basta dar uma oportunidade ao deficiente visual pra ele mostrar sua capacidade, né? Elas são autênticas, têm uma alegria contagiante, achei show! Me identifiquei mais com a Maroca, que acabou se apaixonando pelo diretor. Ela é sincera, não conseguiu ficar calada. Pena que ele já era casado'', lamenta a moça que teve melhor sorte. ''Conheci meu marido em um esbarrão. Foi amor à primeira trombada!'', diverte-se.

O discurso amoroso da mais velha do clã também impressionou Raimundo Nonato. ''Você viu que ela já havia se casado duas vezes e enterrou os dois maridos, né? E olhe que um deles bulia com as irmãs dela! Mas a lembrança que guarda é dele passando perfume nela antes de dormir. Tem muito amor no filme, mostra que o deficiente visual, independente da idade, pode continuar amando'', frisa. Cego há dois anos, Antônio Rodrigues vibrou mesmo foi com o nu das três irmãs, que tiram a roupa para o primeiro e tão sonhado banho de mar. ''Nessas horas é que a vista faz falta'', graceja, querendo arrancar mais detalhes junto ao 'professor-tradutor'. Entre o grupo, aliás, detalhes não passam despercebidos. Ao ser descrita, a cena em que elas descem a escadaria de uma igreja em Salvador no colo do diretor desagrada. O desapontamento que corre de boca em boca é replicado ao pé do ouvido. O riso dá lugar à reflexão.

''Aquelas moças não tiveram a oportunidade que temos no Instituto Hélio Góes, veja que não andam com bengala, não têm família para apoiar. São inteligentes, mas depois que acabar o filme e todo mundo esquecer delas como vão poder, sozinhas, ter uma vida decente? Na Sociedade, lemos em braile, temos ensino formal, aulas de informática, teatro, coral, locomoção e artesanato. Aprendemos a ser autônomos'', regozija-se José Paes. Tarcísio Lopes, o veterano do grupo, não deixa o amigo mentir. Ele, que perdeu a visão aos 7 anos, hoje gaba-se da polivalência: é locutor da Rádio Voz da Amizade, criada na própria Sociedade de Assistência aos Cegos, faz parte do coral e toca pandeiro no grupo de chorinho do Monte Castelo. O sonho do viúvo? Voltar a se casar. ''Aliás, uma das personagens do filme me interessou muito, viu? É a mais nova, Indaiá. Tô até pensando em ir a Campina Grande buscar essa mulher. Uma delas não disse que pensava só receber flores quando morresse? E se eu chegar lá com flores? O amor não é cego mesmo?'', encoraja-se, aos risos. , 24 de Junho de 2005