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TvZero
COM OS OLHOS BEM ABERTOS

PROTAGONISTAS - Três cantadeiras cegas da Paraíba fazem a alegoria do Brasil de 2005

Três irmãs cegas que cantam coco e pedem esmolas nas ruas de Campina Grande, na Paraíba, reaprendem a “ver” o mundo ao se tornar, como por encanto, estrelas do cinema nacional e da música popular brasileira. O enredo parece delírio ou conto de fadas, mas é real e vem compor uma alegoria perturbadora sobre um Brasil que, neste 2005, passa pela experiência dolorosa de enxergar, por baixo dos panos, dados incômodos sobre a substância de que é feito.

O filme chama-se A pessoa é para o que nasce e acompanha, num misto de documentário e narrativa romanceada, oito anos das vidas das irmãs Regina (ou Poroca), Maria (ou Maroca) e Conceição (ou Indaiá) Barbosa, nascidas respectivamente, em 1943, 1944 e 1950. Desde pequenas, elas conhecem a experiência de cantar em feiras, praças e ruas em troca de moedas de esmola.

A constante de vidas furadas pela mendicância atravessa todo o filme com cores de fatalidade, mesmo que entre o início e o fim da historia se documentem a passagem das protagonistas por festivais de world music, a transmutação em “estrelas de cinema”, o contato com astros da MPB, a estréia em CD, visitas a Salvador, São Paulo e Brasília, e até uma condecoração concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Conduzida de modo cru, mas extremamente afetivo pelo diretor Roberto Berliner, pelo co-diretor Leonardo Domingues e pela equipe da produtora carioca TV Zero (atuante na produção de documentários, videoclipes e comerciais), a vida das irmãs Barbosa pode provocar primeiras impressões que resvalem pelo melodrama e pela pieguice. Mas não se trata disso – há algo de novo no ar do céu fatalista de A pessoa é para o que nasce, que aparece timidamente (foi visto, nas três últimas semanas, por parcos 7700 espectadores) com cara de filme marcos dos anos Lula.

Até por conta de uma das cenas finais, em que as deficientes visuais conhecem o mar e se atiram nele completamente nuas, o longa de estréias de Berliner fixa pontes de contato com o cinema do inevitável Glauber Rocha (1938 – 1981) – que usara o mar como elo entre Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Terra em transe (1967).

Sem se eximir de responsabilidades, Berliner justifica uma das cenas mais polêmicas do tipo “ame ou odeie”: “Elas manifestaram várias vezes a vontade de conhecer o mar. Eu achava que a melhor maneira seria sem roupas, já que o contato físico é muito importante para elas. Ali estão três mulheres fora de qualquer padrão de beleza que se vende em publicidade, cinema e tevê. A cena mostra um pouco como estamos todos viciados numa maneira de ver as coisas. É também um pouco o símbolo de toda a invasão do documentário na vida delas”.

Se tal cena coloca indefesas essas mulheres que não possuem o registro visual de sua auto-imagem e das imagens dos outros, o viés que prevalece não é o de sublinhar a cruel dependência a que estão condicionadas. Opõe-se, nisso, à impotência autocrítica elaborada por Glauber em Terra em transe, quando o intelectual (e alter ego) vivido por Jardel Filho aparece tapando a boca de um personagem que diz ser “o povo”.

Não. As três artistas do povo retiram delicadamente a mão do “intelectual” que tapava suas bocas. Invadem o filme com sua retórica e o levam à convulsão durante conturbada visita a São Paulo, para um show no Festival PercPan, em 2000.

Perspicaz, Maroca, a mais articulada e dotada de liderança das três, preanuncia o temporal: “Agora vou para São Paulo olhar os paulistas, que eu nuca vi...Quer dizer, não vejo pra ver, mas...Presto atenção, né?” Após “ver” os barulhos da Avenida Paulista, Maroca trata o anfitrião Gilberto Gil com aspereza diante do público: reclama que o microfone capta a voz do músico, mas não as delas.

O que acontece a seguir revoluciona o filme: no hotel, Maroca faz Berliner entender que está apaixonada por ele – o diretor sai detrás das cortinas para virar personagem do drama. Berliner sabe que corresponde, ao seu modo, àquele amor, evidência que transborda quando justifica sua dedicação, citando com fascínio “o bom humor, a maneira pela qual se organizam para se defender das hostilidades dos que as cercam, a inteligência, a música”.

Mas ali, no calor da hora, rechaça Maroca, desconjuntado, e ouve Indaiá contar que também o ama, “mas é como amigo’. É tarde: as “indefesas” já tomaram conta da narrativa, virando o leme de seus destinos e do filme. O ritmo se precipita e Maroca confessa que tem mágoa das irmãs que teriam se relacionado sexualmente com seu primeiro marido, também cego. As relações se abalam – a equipe se distancia; quando volta, flagra Maroca só em casa de Poroca e Indaiá mendigando na rua, sem os ganzás e a cantoria de antes.

Em entrevista telefônica à reportagem, as três reelaboram o discurso com o qual hoje percorrem o país em shows de lançamento. Ácida e bem-humorada, Maroca reflete sobre o destino, valor e instituições arraigadas: “Pelo fato de eu me ver com uma bacia na mão pedindo esmola, não sabia que podiam me dar valor. Mas estão dando. Acho que antes não sabiam, ninguém sabia, nem eu nunca pensava ser estrela de cinema. Eu era feliz e não sabia. Pensava que ia ficar assim toda a vida. No filme, tem aquilo: a pessoa é para o que nasce. Mas eu não sabia que tinha nascido para ser estrela de cinema. Pensei que tinha nascido para uma coisa somente”.

Isto ela não diz, mas é de sua autoria a frase pescada para título, “a pessoa é para o que nasce”. Questionada pelo repórter, ela ri envergonhada: “Foi, foi mesmo”. Há três semanas em cartaz em poucas salas de São Paulo, Rio, Brasília e Fortaleza, A pessoa é para o que nasce tem recebido críticas ressabiadas, que em geral, reprovam aspectos éticos da exposição crua de mulheres no documentário. Berliner rebate, entrelaçando questões caras aos extremos opostos da crítica e de suas personagens: “É muito difícil ver as ceguinhas em outro papel que não as de mendigas pedintes nas ruas. Quando ocupam um lugar diferente do que ‘deveriam’, choca. Mas poucos jornalistas se chocaram ao vê-las na rua pedindo esmolas de novo. O filme está sempre no limite”.

A alegoria perpassa um país que não ousaria associar supostas “mesadas”, subornos e chantagens (emocionais) entre políticos com atos de mendicância. Esses são sintetizados de modo cortante por Indaiá: “Através do documentário, estão convidando agente para todo canto. Antes a gente só vivia em Campina Grande, no sol da rua, em troca de esmola. Tinha dia que a gente só faltava chorar no meio da rua, porque os gaiatos ficavam dando tapa na cabeçada gentes, puxando o cabelo. A gente ficava sozinha, os gaiatos faziam palhaço da gente. Uma vida humilhada, massacrada”.

Poroca fala de receios quanto ao futuro: “se a gente voltar para a rua agora, o povo vai dizer ‘ainda precisa pedir, não enricaram não?’ Sempre dizem ‘cadê o dinheiro do filme, cadê que deram a vocês?’ Sabe o que digo? ‘Eles não tem capacidade de enrolar a gente, eles não são vagabundos que nem vocês. Eles são gente de capacidade, de categoria, gente de que o Brasil precisa. Não é vagabundo nem cafajeste que nem vocês.”’

O limiar ético permeia as relações entre produtores e “atores”. Quando ganhamos um prêmio legal, compramos uma casa para elas, que depois foi para nas mãos de familiares. Hoje, elas estão orando de favor a aluguel. Não temos como interferir, não podemos tutelá-las”, diz Berliner, descrevendo a relação das três com parentes não cegos, assim resumida no filme por Maroca: “Trabalha o feio para o bonito comer”. A TV Zero diz que redistribuirá lucros de bilheteria e reverterá às três 50% dos direitos autorais do álbum com a trilha sonora do filme.

O CD duplo (R$ 33,90 no site www.submarino.com.br) é um espetáculo à parte. O primeiro volume contém falas do filme e temas populares interpretados pelo trio. O segundo é um surpreendente projeto coletivo de releituras produzidas por Lula Queiroga e interpretadas em pique de pop, rock, rap, samba, etc., por Lenine, Teresa Cristina, Pato Fu, Silvério Pessoa, Lirinha, B Negão, Otto e grande elenco. O jovem grupo pernambucano Mombojó mistura universos e recombina coco, rock, jovem guarda e música brega em Abre a janela, a mais sofisticada releitura do CD – e também a preferida de Maroca.

A canção mais contundente é Moço me dê uma esmola, em que as três suplicam: Ô moço me dê uma esmola/ não queira dizer que não/ favoreça a quem lhe pede/ está chegada a ocasião/ que você tem a luz dos olhos/ nós vive na escuridão. Do outro lado do espelho Fausto Fawcett subverte esse tema,vestindo num rap o terno roto de um mendigo pós - glauberiano: Aí, não tem essa de pobre coitado/ pobre coitado é o cacete, eu não sou pobre coitado/ eu como, eu bebo, eu trepo, eu leio, eu danço, eu amo, eu odeio/ eu tenho sentimento geral igual a você, ‘rapá’, / só que no meio da rua.

Vai nessa trilha também a cena final do filme. Incluída às pressas depois de sua finalização, documenta uma cerimônia de concessão de medalhas ao mérito cultural e reúne no palco de poder de Brasília uma turma heterogênea que inclui Gilberto Gil, índios, Pelé, Maurício de Souza, as “Ceguinhas de Campina Grande” e... Luiz Inácio Lula da Silva. Assim Maroca descreve o encontro: “Ai, meu deus! Foi a surpresa maior do mundo ter falado com o presidente. Tem gente que diz que nunca falou com o presidente. Nós já falamos. Já tem gente com inveja desse filme, não posso nem falar o nome que tenho raiva”. E avalia Lula em si: “Eu acho bom. Ele nunca me deu nada, mas também não me fez mal”.

Maroca, Poroca e Indaiá ressurgem, ali e na estréia do filme neste junho de 2005, como símbolos exuberantes de um país convulso, de um governo que se envolve em escândalos seculares, enquanto reivindica autonomia a grupos sociais que até aqui têm sido historicamente tratados como inválidos e incapazes. Sem enxergar fisicamente, as três dão piparotes de lucidez nos espectadores que aceitem se deixar envolver por três mendigas cegas (segundo conta o co-diretor, seu pai disse que jamais veria u filme como esse, se não fosse de seu filho). Tornam-se protagonistas simbólicas de um país que subitamente se vê vazado pelo diálogo entre cegueira e visão (aquele que vem, no mínimo, dos tempos gregos de Édipo): o mito reaparece hoje no cinema, na Globo (cuja novela América possui um núcleo de cegos, apoiado pelo “rei” Roberto Carlos, pai de um deficiente visual nascido na semana de decretação do AI-5) e no Congresso Nacional (de onde o país vive o trauma de se ver frente a frente com o que talvez sempre enxergasse sem saber).

Enquanto pululam por todo o espectro político frases apocalípticas como “o governo acabou” e “O Brasil acabou”, Maroca ou Maria Barbosa conta como se sente internamente, diante de tanta transformação: “A vida não pode mudar assim, de repente. Faz só oito anos que estão fazendo o filme, não é obrigado mudar assim de vez. Vai mudando aos poucos”. E concede, generosa, sua receita para manter acesa a tarefa hercúlea da sobrevivência: “O filme é grande, mas a história da gente não está nem no começo ainda. Agora é o começo, é o começo agora”. , 29 de Junho de 2005