A MÚSICA É PARA O QUE NASCE

Nasci e fui criado em Campina Grande, e as três ceguinhas que cantavam coco fizeram parte da minha paisagem durante a vida inteira, com seu trinado de vozes e seus ganzás, desgrenhadas como as feiticeiras de Macbeth, mas nunca ameaçadoras. Vozes tristes, maltratadas, mas com aquela pungência de quem não tem mais o que perder e qualquer coisa que ganhar é lucro.

O encontro das irmãs com Roberto Berliner, que resultou em filme e CD, é, para alguns, uma prova de que a nossa vida é regida pelo Acaso. Mas, quando Lia procura explicar a atitude das três diante da vida, produz a frase que acabou se tornando o título do filme, e que exprime a dificuldade em conciliar o sonho individual e a predestinação coletiva. Cada um nasce para preencher um destino que o espera. Tudo indica conformismo, resignação, e o fatalismo "maktub" de uma cultura que crê no Livro do Destino. Os que em vez do Acaso acreditam no Destino vêem justamente nesta alta improbabilidade uma prova de que aquele encontro "tinha de acontecer", "estava escrito".

O Som da Rua buscado por Roberto Berliner é este murmúrio constante que escutamos nas esquinas de qualquer cidade brasileira. Pessoas que cantam canções, que improvisam versos, que recitam, que tocam instrumentos toscos na calçada, com microfones primitivos presos ao pescoço, e amplificadores de segunda mão equilibrados em cima de um tamborete.

Por um lado, é a continuação de uma atividade típica de uma época sem rádio e TV, na qual só existia um tipo de música: a música ao vivo. Por outro lado, o rádio e a TV acabaram preenchendo com sua música incessante o dia-a-dia destas pessoas, multiplicando muitas vezes seu repertório, imprimindo em sua memória os sucessos passageiros e os clássicos que nunca deixam de ser tocados.
O CD 1 do álbum das "ceguinhas" mostra com seu repertório a ponta do iceberg de nossa memória musical inconsciente e coletiva.

São Cocos de Embolada tradicionais e anônimos, cujos refrões fortes servem para que as cantadoras puxem versos da lembrança, versos aleatórios, intercambiáveis, num sistema recombinatório que é típico do Coco.
São pedaços de sambas, de toadas dolentes, de valsinhas nostálgicas que elas talvez tenham ouvido na Rádio Borborema em programas como "Encontro com o Passado".

São retalhos de canções que elas pegaram de ouvido sem saber de quem eram, ou de canções compostas por alguém da rua, alguém do bairro; o cancioneiro inesgotável das músicas que nunca foram gravadas, voz incessante de um país onde todo mundo arranha um violão e arrisca um versinho.

Há fragmentos de versos de um cordel de João Martins de Athayde (os versos de "rebolei todo o trem fora da linha", em "Jurema Preta"), há uma canção atribuída a Eliseu Ventania, veterano poeta repentista do Rio Grande do Norte; há uma canção do primeiro marido de Lia, que mostra a simplicidade poética e melódica que é tão espontânea ao brasileiro. Estas canções feitas de fumaça e vento produzem este rumor surdo e profundo que pode se ouvir a qualquer hora, em qualquer parte do Brasil. É gente sem nome e sem rosto fazendo uma música sem dono e sem fim.

O CD 2, "Releituras" mostra a fase seguinte deste processo, quando artista profissionais (BNegão, Otto, Zé Renato, Tereza Cristina, Lenine, Júnior Barreto, Mombojó, Pato Fu, Elba Ramalho, Lula Queiroga, Silvério Pessoa, Pedro Luís e a Parede, Lirinha, Cabelo, Nervoso e Canastra, Originais do Sample, Braulio Tavares, Fausto Fawcett e Laufer, Eddie) retomam os temas, os refrões, os versos passados adiante por elas e os recriam, cada qual ao seu estilo e feição. Vemos aí uma colcha-de-retalhos tipicamente contemporânea. O samba, a marchinha, o coco, a Jovem Guarda, o hip-hop, a toada eletrônica, a palavra falada, a colagem sonora, a batucada. E por baixo disto tudo, como se fosse a terra que nutre uma jângal inteira de espécies vegetais, o som da rua.

Regina, Maria e Conceição conheceram um breve período de visibilidade à luz dos holofotes e das câmeras, e um dia retornarão para o oceano primordial de onde emergiram. A arte que produzem é aprendida, recomposta e refinada por artistas de têmpera mais rija, mais preparados para a guerra sem quartel que é o show business. E se perpetua. Quando Gilberto Gil e Naná Vasconcelos prestam homenagem às ceguinhas no palco do PercPan, o que temos ali é a gasolina-de-avião pedindo a bênção ao petróleo bruto de onde foi extraída.

 

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